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02 OCT 2017
UMA PESSOA ÀS DIREITAS
Por Jornal Abarca

Nem a propósito: há algum tempo, numa banca de velharias, na feira semanal em Castelo de vide, ao pegar num livro bem velho este trouxe-me à memória outros tempos e outras gentes.

O livro intitula-se “Portugal Maior – livro de leitura para o ensino técnico profissional” e é, nada mais, nada menos, o que usei num dos primeiros anos da EICA (Escola que, como se lê, no rodapé desta crónica, frequentei como estudante).

Do livro, muito pobre e talhado para formatar mentalidades, foi um passo até esses outros tempos e à recordação de que houve pessoas, que foram capazes de, remando contra a corrente, dar outro sentido à vida dos miúdos que nós erámos e combater os estereótipos com que o sistema político da época, nos procurava moldar.

O referido livro e o tempo a que reporta levou-me a pensar que hoje em dia não existem muitos indivíduos que possam ser categorizados como “pessoas às direitas”, expressão hoje praticamente caída em desuso. Saiba-se lá porquê!

Este texto tem um objectivo bem definido: homenagear, quando passam duas décadas sobre o seu precoce falecimento, uma das melhores pessoas com quem lidei ao longo da minha vida (e muito, muito perto de ser a melhor, se um tal posicionamento fosse possível, nestes processos de relações humanas -o que se mostra muito difícil).

Fui seu aluno. E depois, porque os tempos eram outros, amigo de casa e ainda hoje amigo da família. Que tempos esses! Em que um professor era mais do que um personagem de um argumento ensaiado e exercia uma influência real sobre os jovens estudantes.

O Professor António Bandos foi um dos melhores abrantinos que eu conheci. Como pessoa, talvez não houvesse igual: procurando de forma sistemática a informação; ensaiando deslindar de modo permanente a confusão, para perceber a realidade; abrindo portas de diálogo, onde reinava a desordem, valorizando os mais simples dos argumentos, na missão de ensinar, como na vida real.

Porque tal se ajustava à sua personalidade abrangente, a política abrantina escolheu-o para Presidente da Assembleia Municipal, cargo que desempenhou de forma equilibrada durante anos. Um cargo político desempenhado por alguém que não se via, nem se sentia como um político. E que nada tirou da política, a não ser a felicidade de servir a Comunidade.

O Professor António Bandos era docente de História. Aliás, foi meu professor de História: de aulas em que brilhava a sua simplicidade e o modo como nos tentava cativar para o conhecimento desse passado, a que estamos todos ligados de um modo ou outro, de forma perdurável. Fomos poucos os que foram seus alunos, que não ficámos seus amigos, respeitando-o pelo modo como procurava mostrar-nos um mundo diferente do apresentado no “Portugal Maior”.

O Portugal “pequenino” teve pessoas assim. Pessoas às direitas, que foram capazes de olhar o mundo de outro modo (Coimbra, terá ajudado) e de o mostrar a outras pessoas (a sociedade aberta que era a Cidade de Abrantes, também contribuiu muito para isso).

Abrantes deve ao Professor António Bandos mais do que aquilo que é visível hoje e algo que parece estar a ser levado pelo tempo.

O Professor António Bandos pertencia a uma geração que foi encurralada pelos novos desígnios que não estavam na matriz da democracia nos seus alvores: entregaram-se à política com a convicção (coisa que hoje se assemelha a uma miragem) de que essa era a melhor via para elevar o nível de vida dos portugueses e voltar a criar um país capaz de se projectar ao nível da sua história e das capacidades que os portugueses realmente possuem.

Tenho saudades do Professor António Bandos. Pelo exemplo. Pelo desprendimento. Pela argúcia. E pela demonstração de que existe uma forma de olhar o mundo que respeita os outros, na vida e na comunidade.

E nem falei aqui dessas férias na Nazaré em que os penduras apareciam para almoçar ou jantar e na casa de férias da família Bandos havia sempre lugar à mesa para mais uns miúdos “destravados”. Enfim, outros tempos,…

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