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20 DEZ 2017
Natal e Astronomia
Por Jornal Abarca

Em plena época de Natal, é certo que estarão preparadas as prendas e outros artigos geralmente utilizados num período em que, independentemente da intensidade de fé religiosa, se continua o culto das reuniões familiares em ambientes algo recatados, muitos deles decorados com as figuras do “presépio”. Não faltará a “cabana do Menino Jesus” sobre a qual é (quase sempre) representada uma “estrela com cauda” ou, mais propriamente, um cometa. Ao que parece, a intenção é que tal símbolo materialize a citação bíblica de um “sinal” que os “Reis Magos” terão visto no céu e que os guiou até ao local de nascimento do “filho de Deus”.

É antiga a especulação sobre o que terão visto Gaspar, Melchior e Baltazar mas é muito possível ter sido algo muito diferente do que, actualmente, a nossa lógica permite conceber. Não é fácil imaginarmos outra coisa que não seja qualquer fenómeno que envolva astros brilhantes, sejam planetas ou a Lua, um cometa ou “estrelas cadentes”, ou mesmo uma supernova, isto é, a explosão violenta de uma estrela, o que a faria destacar anormalmente das outras e, eventualmente, ser observável em pleno dia.

A maior dificuldade encontrada nas tentativas de estabelecer a natureza de tal fenómeno reside, essencialmente, na determinação da data em que ele ocorreu, pois, os conhecimentos e recursos tecnológicos atuais poderiam facilitar a reconstituição do céu de então, identificar fenómenos astronómicos que, eventualmente, tivessem ocorrido nessa época ou mesmo tentar encontrar registos – naquela região da terra ou noutros locais distantes – de acontecimentos observados num passado longínquo.

Na verdade, se do ponto de vista religioso – ou, simplesmente, tradicional – não é muito importante conhecer rigorosamente o momento em que Cristo nasceu (basta acreditar que nasceu), para relacionar o facto descrito com qualquer acontecimento astronómico, é indispensável conhecer, com rigor, quando ele ocorreu. E foi esse propósito a que Kepler se lançou quando, depois de ter observado, em 1603, os planetas Júpiter e Saturno muito próximos no céu, aos quais se juntou Marte, pouco tempo depois, fez cálculos que o levaram a perceber que no ano 4 a.C. – data já então admitida como provável para o nascimento de Cristo – tinha ocorrido um fenómeno semelhante de conjunção de planetas.

Desde então não cessou a produção de trabalhos e publicações sobre hipóteses de datas e tipos de fenómenos sem, no entanto, se ter progredido consideravelmente em relação ao conjeturado no princípio do século XVII. Uma das hipóteses, e que tem a ver com a decoração da “Cabana do Menino Jesus”, é de que o “sinal celeste” tenha sido um cometa, o que - perante as dificuldades resultantes de não se poder precisar a data e não se encontrarem registos em que a aparição seja descrita - não poderá ser tomado como seguro. No entanto, a aceitar-se tal ideia, o “sinal” poderia coincidir com o cometa de Halley e que a sua “aparição” na decoração das cabanas dos presépios se tenha verificado, apenas, a partir do início do século XIV.

De facto, em 1301, Giooto di Bondone incluiu um cometa no seu famoso quadro “A Adoração dos Reis Magos” que decora o interior da capela Arena, em Pádua. Na ocasião, a visão do cometa foi tão espectacular que não admira ter inspirado o pintor e arquiteto a fazer dele a “Estrela de Belém”, hipótese que só muito mais tarde – no século XVII – se tornaria possível admitir como legítima, depois de o astrónomo Edmond Halley ter estabelecido a sua periodicidade, da qual foi possível concluir que a aparição de 1301 terá sido a décima sétima vez que o cometa se tornara visível depois da época considerada como a do nascimento de Cristo. Apesar de a análise dos testemunhos (registos em papel, pedras ou outros materiais) não ter (ainda) permitido fixar rigorosamente a data do nascimento de Cristo, e ser quase certo que não terá sido em período tão frio como dezembro, nem no ano que continuamos a considerar como o “início da nossa era”, é natural que, nesta época – com ou sem presépios decorados com cometas ou outros “sinais” – mais do que em qualquer outra, nos alheemos dos preciosismos científicos para nos envolvermos numa espécie de ritual em que a família e os amigos constituem o principal objecto da palavra Natal.

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