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01 FEV 2018
A BANDA DE GARAGEM QUE MARCOU O FUTURO
Por Jornal Abarca

Em época de comemorações do centenário de elevação a cidade, que acontecimento poderíamos escolher como o mais importante da segunda metade do século XX em Abrantes?

Na nossa opinião, o acontecimento mais importante, o que mais marcaria a cidade, do ponto de vista dos costumes, das mentalidades, da cultura, da política, da moral, das relações sociais, da sexualidade, da educação e outras áreas foi o surgimento da banda de garagem Sinfonia Corva.

Sim, Sinfonia Corva e não Os Corvos. Para quem não tem memória desse tempo, um pouco de história: primeiro surgiram Os Corvos, um incipiente grupo musical, composto por “músicos” que não tinham cultura musical e que foi criado, se assim se pode dizer, nas escadas da igreja de São João, ao tempo um dos lugares de reunião do grupo de jovens que viria a estar na base da sua fundação e cuja área de influência era delimitada pelo Largo Barão da Batalha e a Rua Nun’Alvares (ou da Barca).

Os Corvos surgem num momento em que, como hoje se diz, a cena musical ligeira abrantina era dominada pelos monstros Lua Azul (que actuava predominantemente na sede do Benfica de Abrantes, pelo que podia ser identificada como a banda residente desta agremiação;) e Tulipa Negra (a mais resistente das bandas de música ligeira, maioritariamente composto por membros da família Catorze e que actuava sobretudo no Sporting de Abrantes, onde, assumidamente, era a banda residente).

O primeiro grande momento de Os Corvos foi a compra dos instrumentos musicais. Adquiridos em Lisboa, com fiança dos pais. Com instrumentos, o grupo nasceu. Só que tocava mesmo mal. Mas lá se aguentou, com queixas e contra-queixas pelo barulho que faziam nos ensaios e olhares de soslaio de beatas e conservadores.

Os Corvos não ensaiavam em garagem alguma, mas em locais disponíveis, de onde iam sendo sucessivamente expulsos, por incomodarem a vizinhança.

Os Corvos tornam-se definitivamente uma banda de garagem quando:(i) alugam a garagem da Rua de São Pedro; (ii) o Moreira se torna o Managerda Banda, dando-lhe solidez organizativa e financeira; e (iii) é contratado o Augusto Vintém, vindo de Portalegre, que vem dar estabilidade musical ao grupo e um som distintivo e moderno.

Os Corvos não eram rivais da Lua Azul ou da Tulipa Negra. Eram, isso sim, uns rapazes que tentavam tocar umas músicas da moda e inventavam nas letras em inglês ao ponto de ninguém perceber muito bem o que se dizia. Talvez a sua marca mais distintiva fossem as camisolas de gola alta, popularizadas pelos músicos ingleses, usadas no inverno.

A Sinfonia Corva, foi outra “música”. Com a mudança de nome e de estratégia de penetração nas festas e bailes, a banda emancipou-se. Passou a ser contratada para actuar fora da cidade e da região. E os seus membros e acompanhantes (entre os quais me incluía) passaram a ser olhados como um grupo esquisito.

Havia dias em que outros músicos que se encontravam na cidade (devido ao recrutamento militar para África) ou fora dela (o caso do Jorge Palma, ao tempo estudante no Colégio das Mouriscas) apareciam pela garagem para uns acordes.

Durou não muito tempo essa atitude de rejeição da cidade conservadora. E a Sinfonia Corva passou a ser um elemento de agregação de quem não se revia no conservadorismo dominante e ansiava por formas de expressão (de todo o tipo, incluindo a política e a moral).

E atrás da Sinfonia Corva surgiram outras bandas, no Tramagal, no Colégio La Salle, que animavam as festas estudantis

Abrantes, nunca mais foi a mesma depois de a Sinfonia Corva se ter consolidado como projecto de banda de garagem. Mudou tudo. A forma como a juventude era vista. O modo como esta se comportava. E, pasme-se, não havia drogas. Às vezes, para os que bebiam: um pouco de álcool a mais. E tão só.

Com a usura do tempo (e a idade, as rivalidades e as traições amorosas) o projecto degradou-se e enveredou por uma via comercial.

Mas as sementes lançadas na Rua de São Pedro, mudaram para sempre a cidade. Os corvos que estão no brasão da cidade nunca terão representado um tão grande hino às liberdades como nesse momento de viragem.

A Sinfonia Corva nunca foi um grande grupo musical. Faltava-lhe, em cultura musical, o que sobrava em voluntarismo e risco.

Com o surgimento da Sinfonia Corva Abrantes entrava numa galeria épica que atravessa todo o mundo ocidental com o nascimento de grupos de adolescentes que baseavam a sua solidariedade de grupo na música dita “moderna”. Era, foi, o tempo da revolução nos costumes. Aconteceu em Abrantes. Os actores: um grupo de miúdos que faziam a barba há pouco tempo. No entanto, deixaram um marco na cidade: uma daquelas coisas que custa a acreditar que seja verdade: mas aconteceu mesmo.

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