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NOVEMBRO '06
 
 
PAULO FONSECA, GOVERNADOR CIVIL DO DISTRITO DE SANTARÉM
 
INDIVIDUALISMO REGIONAL EXCESSIVO E DOENTIO
 
 
 
 
MARGARIDA TRINCÃO
PAULO FONSECA
“O individualismo é o maior problema da região” diz Paulo Fonseca, Governador Civil do Distrito de Santarém. Lê a imprensa regional, acha que todos os jornais são bem-vindos e que deveriam ser considerados um serviço público. Na sua perspectiva regional o São Martinho, na Golegã, é um acontecimento nacional.
 

Costuma ler a imprensa regional?
Toda.

Toda?
A sério. Mas confesso que há notícias que leio na diagonal, seria impossível fazê-lo de outra forma. Mas também quem tem a ousadia de desempenhar funções de Governador Civil tem que ter treino mental suficiente, para conseguir ler na diagonal e perceber a ideia da notícia. Confesso, sem falsa modéstia, que tenho esse treino.

E qual é a sua opinião sobre a imprensa regional? Há jornais a mais? Todos são bem-vindos?
Todos são bem-vindos, porque são importantes. Cada escola devia ter o seu próprio jornal, porque estimula o envolvimento dos alunos. Desenvolvia o estímulo pela leitura de jornais, pela leitura de livros, pelo interesse pela notícia, pelo interesse em estar informado. Os jornais regionais enfrentam um problema que não tem que ver com a região, tem que ver com o país. Valia a pena criar mecanismos legais que pudessem responder a uma pergunta muito simples: o serviço de comunicação social nacional, regional, local, é ou não um factor de interesse público? Estou, profundamente, convencido que é. Se é um serviço público - faço campanha por um referendo nesse sentido se for caso disso - então os contribuintes deviam assumir a sua despesa.

As suas decisões são influenciadas pela imprensa regional?
Jamais. Compreendo perfeitamente o papel de cada um e não me deixo influenciar pelo papel de cada um. É como se fosse um jogo de futebol, eu jogo contra o adversário durante 90 minutos e vou transpirar a camisola e vou dar o meu melhor para ganhar. A partir do momento em que o árbitro apita, porque acabou o jogo, convido o adversário para jantar. Há muita gente, se calhar gente de mais, que depois do árbitro apitar, vai tomar banho e ainda vai dar um chuto à baliza, convencido de que o jogo ainda não acabou. Esqueceu-se que já acabou na hora ou no dia anterior. Não vou por aí. Quando a comunicação social intervém e, com a sua leitura dos factos, aponta os meus erros ou as minhas virtudes, é-me absolutamente indiferente. Confesso também que sou um cidadão e fico contente quando dizem coisas boas de mim e triste quando dizem coisas más, é natural.

As notícias apontam que no ano transacto, houve menos incêndios e menor área ardida. Quais são as medidas de preventivas a seguir para o próximo ano?
Conseguimos reduzir a área ardida em 84 por cento e o número de ignições em 25%. Sempre dizemos que havia uma relação directa entre o número de ignições e a sua extensão, se houver 50 incêndios ao mesmo tempo são mais difíceis de combater do que se houver 25. As notícias são positivas por uma razão principal, passámos o Inverno a discutir os fogos florestais. Fiz uma reunião com os gabinetes de técnicos florestais de cada um dos municípios e outra com os representantes das 21 câmaras municipais do distrito de Santarém. No início de Novembro, vamos ter o II Fórum das comissões municipais da defesa da floresta contra incêndios. Estes organismos, criados há ano e meio, visam organizar todo o sistema preventivo.

Uma das grandes apostas foi a criação de ZIF, a primeira nasceu no concelho de Abrantes, na Aldeia do Mato, mas ainda não foi concretizada, porquê?
Temos um problema estrutural que diz respeito às mentalidades. Eu e os meus colaboradores fizemos 35 reuniões por todo o distrito e verifico, com mágoa, que é difícil romper com a ortodoxia instalada. Já assisti a discussões em que um proprietário dizia que os seus pinheiros eram mais grossos dos que o do vizinho, portanto, não tinha que associar-se. Isto é absurdo. O Estado disponibiliza ajuda técnica e financeira para a reflorestação e tal não é aproveitado pelos proprietários. No distrito de Santarém, há três ZIF em curso o que é muito pouco. É caso para dizer de uma forma provocatória que o Estado apoia técnica e financeiramente para que cada um possa ter alguma rentabilidade e as pessoas não aproveitam.

Para o norte do distrito, está planeado a construção de duas pontes, uma na Chamusca, outra em Abrantes - entre Rio de Moinhos e o Tramagal - e a recuperação da travessia rodo-ferroviária de Constância continua sem resolução?
Podia encher o jornal ABARCA sobre a questão das pontes no distrito de Santarém. Compreendo a pergunta, mas seria deselegante divulgar algumas novidades sobre o assunto, antes de informar os presidentes das câmaras envolvidos. Na questão das pontes, o Plano Rodoviário 2000 estabelece no IC9 uma ponte a jusante da actual ponte de Abrantes, e no IC3 uma nova ponte na zona da Chamusca, para além da recuperação da actual que irá entrar em obras dentro de pouco tempo. E existe o problema da ponte de Constância. Nesta última, depois de um estudo exaustivo, foi detectado que um dos pilares não tinha sustentabilidade, há risco de segurança, nomeadamente a veículos de peso substancial. Daí a proibição de circulação a veículos acima das 15 toneladas. Precisamos de resolver este problema de segurança e, ao mesmo tempo, consolidar o plano rodoviário 2000. Estamos a trabalhar nas três frentes e temos boas soluções.

E não quer adiantar quais são?
É decorrente deste raciocínio quais são as soluções.

E tempos?
O mais rápido possível… a curto prazo.

Num outro âmbito, de unificação e promoção do distrito, a rota do vinho tem sido grandemente dinamizada pelo Governador Civil…
A Rota do Vinho foi criada há alguns anos e pretende fazer a interligação entre as empresas, os produtores de vinho, os restaurantes, que foi criada no distrito de Santarém à semelhança de outras regiões. O Ribatejo, tal como o Douro, o Alentejo ou qualquer outra região do país, tem vinhos de marcas boas e menos boas e têm que ter um lugar no mercado. Um lugar no consciente ou subconsciente do consumidor que quando se senta à mesa de um restaurante, em geral, nunca pede um vinho do Ribatejo. Mas temos que defender o nosso lugar em termos de promoção, divulgação e consumo de alguns dos nossos vinhos. O grupo de trabalho, criado a partir do Governo Civil, tem o objectivo de reflectir sobre a dificuldade de penetrar no mercado e, sobretudo, no subconsciente do consumidor, para garantir um reforço na quota de mercado que actualmente existe.

E há bons vinhos no Ribatejo?
No Ribatejo, como em todo o país, há três tipos de vinhos, os DOC (Denominação de Origem Controlada), os Regionais (ambos podem ser certificados) e os de Mesa que são os de pior qualidade e não vão há mesa. Ao nível da certificação, temos apenas 12 por cento de vinhos certificados, o que significa que 88% não são certificados, ou seja são vinhos de mesa. No Alentejo, 97% dos vinhos são certificados, só 3% são de mesa. É preciso melhor a nossa imagem qualitativa e só há uma hipótese: termos a noção que é necessário ganhar dimensão para podermos ser ouvidos e dessa forma podermos ter capacidade de penetração nos mercados regionais, nacionais e internacionais.

Dentro das rotas do vinho, na Golegã, o presidente da câmara criou uma rota mais pequena que intitulou “rota do cavalo, do touro e do vinho” que se deveria estender-se aos concelhos limítrofes. A iniciativa não parece ter tido grande adesão, enquanto governador o que é que tem a dizer destas iniciativas mais locais?
É absolutamente louvável. Provavelmente terá tido o problema que referi há pouco e que não me canso de referir porque é o único problema da região: o individualismo. No dia em que conseguirmos ultrapassar esta tentação seremos a principal região do país – é a única que daqui a 20 anos terá mais habitantes do que tem hoje, é a única com potencialidades para crescer. Acho que há um défice ao nível da estratégia global da região e por isso criei o conselho estratégico da região. A questão da “rota do cavalo, do touro e do vinho” deve ser enquadrada regionalmente. Naturalmente que uma rota do cavalo, do touro ou do que quer que seja, com dimensão local, não pode ser projectada para fora do país, mas o que está em causa é valorizar cada uma das terras, cada um dos concelhos, cada uma das realidades na perspectiva de fazer delas um somatório de realidades do território. É um pouco como a União Europeia se se quiser, a realidade social, cultural de cada povo europeu é uma absolutamente distinta de todas as outras e o somatório dá uma federação de europeus.

Mas há uma feira na Golegã que tem dimensão nacional e internacional…
De importância total. A título de exemplo, digo-lhe que vai haver em Santarém o Congresso Nacional do PS, a 10, 11 e 12 de Novembro, e pelo facto de coincidir com o São Martinho está instalado o caos em termos de alojamento. É preciso valorizar esta questão, a região tem que se valorizar pelo somatório das realidades locais, que têm que atingir uma dimensão regional e o São Martinho da Golegã, se me permitem os goleganenses, tem que ser da região e de todo o país. É um desafio do próprio país. E é por isso que o país põe mais agentes da autoridade na Golegã nesta altura, e é por isso que no dia 11 de Novembro se consegue por algumas pessoas que detestam castanhas, a comer castanhas assadas por que faz parte da tradição. O 11 de Novembro na Golegã, o 13 de Maio em Fátima e um conjunto de eventos desta natureza tem que ser assumidas de uma vez por todas como pertença de toda a região. Se cada chamusquense, se cada entroncamentense, se cada torrejano sentir que o São Martinho da Golegã é também algo de seu, para o qual pode dar o contributo e recolher a mais valia, quanto mais não seja por pertencer a uma região que faz coisas de dimensão nacional e internacional, então toda a região vai ser valorizada.

E o Governador Civil vai à Feira da Golegã? Enquanto Governador ou enquanto Paulo Fonseca?
Prefiro ir como Paulo Fonseca, confesso. E gosto imenso de comer castanhas.