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FEVEREIRO '08
 
VÍTOR MANUEL, TREINADOR E EX-JOGADOR DO TSU
 
“VEJO O FUTEBOL RIBATEJANO COM ALGUMA TRISTEZA”
 
 
 
 
SÉRGIO MOURATO
VÍTOR MANUEL
Vítor Manuel, natural de Mouriscas, ex-jogador do Tramagal Sport União e treinador da equipa angolana 1.º de Agosto, vê “com alguma tristeza” o futebol ribatejano.

PERFIL

Nome: Vítor Manuel Motas Fernandes
Idade: 55 anos
Data Nascimento: 12-08-52
Naturalidade: Mouriscas (Abrantes)
Percurso
Jogador: Tramagal (1966/1969) e Académica (1969/1978)
Treinador: Académica (78), Sporting Braga, Penafiel, União Leiria, Belenenses, Leça, Salgueiros, Alverca, União da Madeira e 1º Agosto (presentemente)

Nota
Nos últimos anos tem comentado jogos das Ligas Bwin e Vitalis na Sport TV

Orientar o 1.º de Agosto é o maior desafio da sua carreira de treinador?
É o maior desafio em termos de grandeza, em termos de objectivos, poderá ser. O 1.º de Agosto é o maior clube de Angola e joga para ser campeão. Nas equipas que treinei em Portugal, os objectivos que foram definidos nas equipas nunca passaram por esta meta. Daí ser um desafio aliciante, motivador, exigente e de grande responsabilidade. Os jogadores também estão conscientes que jogam num grande clube. Sentem essa pressão e querem ganhar. É com esse objectivo que partimos para a primeira eliminatória da Liga dos Campeões Africanos e primeiro jogo do campeonato. É melhor jogar para ser campeão do que para não descer de divisão.

O objectivo de ser Campeão Nacional dá-lhe outra motivação?
A minha motivação é muito grande porque tenho uma grande paixão pelo futebol. O que valoriza os treinadores e as instituições são os títulos. Jogar para ganhar qualquer coisa é sempre importante, quer se trate de um campeonato ou de uma taça. É isso que faz currículo. O bom trabalho que possamos fazer nos clubes, não nos dá dimensão, nem a mediatização de ser campeão. Pela primeira tenho a possibilidade de ter a vitória do campeonato como meta, mas não é fácil. Há mais três clubes com os mesmos objectivos: Inter de Luanda, que foi campeão no ano passado, o Petro e o Asa. Estes que juntamente com o 1.º Agosto, são os baluartes do futebol angolano.

Curiosamente equipas orientadas por técnicos portugueses. Manuel Fernandes (Asa), Bernardino Pedroto (Petro) e o luso-brasileiro Mozer (Inter). Vão rivalizar?
O Manuel Fernandes é uma figura muito respeitada, é um treinador que tem tido grande sucesso. Já foi campeão três vezes pelo Asa e ganhou duas Taças de Angola. É um homem com grande prestígio e que abriu portas a outros treinadores como Carlos Alhinho, Mozer que foi campeão o ano passado, e agora estou eu.

O 1.º de Agosto realizou um estágio de pré-temporada em Rio Maior, que terminou a dia 31 de Janeiro.
Que balanço faz?

A intenção foi vir para um clima mais ameno, Angola está no pico do verão e entendi que não era muito aconselhável treinar tão intensamente com aquelas temperaturas elevadíssimas. Viemos para um clima mais ameno, para um país onde os jogadores se adaptassem bem. Todos falam português, a alimentação é parecida e podemos treinar com equipas de qualidade, com um ritmo competitivo muito mais elevado, pois o nosso campeonato já está a meio. Jogamos com equipas com ritmos competitivos elevadíssimos, que nos criaram bastantes dificuldades, obrigando-nos a jogar com uma grande intensidade. Foi um estágio extremamente positivo.

A primeira meta é a passagem à pré-eliminatória da Liga dos Campeões Africanos a 15, 16 ou 17 de Fevereiro.
Exacto. São duas eliminatórias e queremos ter uma boa prestação já no primeiro jogo e depois tentar conclui-la em casa a nosso favor, para então defrontarmos uma equipa do Líbano e entrar, definitivamente, na fase de grupos. Depois, vem o campeonato, a 5 de Março.

A contratação de Manucho pelo Manchester United veio dar outra visibilidade ao Campeonato Angolano?
O Manchester tem um campo de recrutamento muito grande com olheiros por todo o mundo. O estranho é que os grandes clubes portugueses não tenham descoberto o Manucho, o melhor goleador nas últimas duas épocas, e tenha sido o Manchester a descobri-lo. Estou convencido que há mais “Manuchos” em Angola. A ida do Manucho para Manchester é uma boa motivação para os jogadores angolanos porque lhes abre perspectivas de virem para a Europa. A CAN tem também grande visibilidade e no Campeonato Girabola já há muitos olheiros estrangeiros a observar os jogadores.

Como tem acompanhado o futebol do distrito de Santarém,
onde o Fátima fez história ao ascender à Liga de Honra?

Vejo o futebol ribatejano com alguma tristeza. Nos meus tempos, anos 70, teve grande expressão. Lembro-me de grandes equipas que o Tramagal Sport União teve, o União de Tomar, os Leões de Santarém, o Torres Novas. Emergiu também rapidamente o Abrantes. Tem óptimas condições, mas acho que passa por uma crise financeira muito grande. Se calhar as coisas foram feitas de pressa demais, e hoje estão a sofrer por todo esse crescimento que talvez, não fosse efectuado de uma forma sustentada. O futebol regional, ou melhor todo o futebol português atravessa uma grande crise em termos financeiros e os clubes estão a ter muitas dificuldades. O Fátima é o grande representante do futebol do Ribatejo. Parece-me que tem muita qualidade e condições para se manter e até pensar em outros voos. Está numa zona com capacidade financeira e com boas infra-estruturas. É com alguma tristeza que vejo clubes que eram grandes equipas e foram importantes no panorama do futebol nacional, nomeadamente na 2.ª Divisão: o Tramagal esteve quase a subir à 1.ª Divisão, o União de Tomar jogou lá, o Torres Novas esteve próximo.

Em sua opinião, qual foi o problema do TSU?
Neste momento, a zona tem muitas dificuldades económicas. A Metalúrgica Duarte Ferreira era o grande baluarte e o grande suporte da instituição e todos sabem o que lhe aconteceu. Era a entidade empregadora dos jogadores, que eram trabalhadores. No meu tempo, nas camadas de formação havia jogadores de grande qualidade e, parece-me que, essa formação tem sida posta um pouco de lado. Naquela altura, o Tramagal era um clube apetecível, o União de Tomar e o Torres Novas também, pois tinham já uma boa dimensão futebolística a nível de seniores e isso motivava os jovens. Agora esses clubes estão a atravessar uma fase muito difícil e os jovens estão virados para outras modalidades. Há a Internet, os computadores… O futebol da rua acabou. Hoje já não há os passes do meu tempo. Jogava futebol dez horas seguidas. Hoje os jogadores não têm grande qualidade técnica porque não jogam tanto tempo, nem em espaços tão reduzidos. Em espaços reduzidos tínhamos que ser tecnicamente muito bons para resolver o problema duma forma rápida. Tudo isto acabou e, por isso, tem havido menos talentos. Os grandes clubes portugueses vão buscar muitos jovens ao estrangeiro, mas já começaram a apostar na formação porque chegaram à conclusão que é importante criar academias para que sejam o grande suporte do futebol. Os clubes portugueses não têm capacidade financeira para contratar grandes jogadores.