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DEZEMBRO '08
 
 
A MEMÓRIA DE MANOEL CONSTÂNCIO
QUINTA DO VALLE DA LOUZA
 
 
 
 
MARGARIDA TRINCÃO
As paredes transpiram as memórias dos que lá viveram. As suas lágrimas e risos, as angústias e alegrias, os dramas e vivências das várias gerações que habitaram os espaços que Manoel Constâncio (1726-1817) fez nascer.
 
   

CARTA DE SANGRADOR

“Dom Carlos Lopes de Sousa e Dona Alexandra Lopes de Sousa venham até aqui. Quero-vos entregar um dos meus mais preciosos tesouros: A minha carta de Sangrador. Gostava que ficasse aqui na casa!”
O Grupo Teatro Palha de Abrantes, dirigido por Helena Bandos, teatralizou partes da apresentação do projecto de Alexandra e Carlos Lopes de Sousa para a Quinta do Valle da Louza.
De cima de um púlpito, um dos elementos do grupo, anunciou aos presentes o teor da carta de sangrador e do diploma de cirurgião de Manoel Constâncio. No final, assistiu-se à chegada do “dono” da casa, acompanhado do seu fiel caseiro João Bexiga, segundo um texto de Carlos Sousa.
Era Novembro de 1783, Manoel Constâncio então com 57 anos, “perseguia, mais que nunca, a ideia de acabar a sua obra da quinta do Valle da Louza”.
“Desde a Primavera que não ia à Quinta.
Foram muitas as razões, a sua filha tinha nascido em Março e com uma saúde muito delicada, não ficou bem também a sua mulher depois do parto, a Rainha tinha cada vez mais achaques a que as sangraduras não acudiam, a clientela não parava de aumentar.
Mas não podia adiar. Por algumas semanas as aulas de Anatomia teriam de prosseguir sem ele; bem que tinha preparado os seus alunos mais velhos para ajudar os mais novos e agora era a ocasião de comprovar a sua razão.
Sendo assim não levaria Dona Joana, a sua mulher, só o seu criado Francisco, que o servia fielmente desde o terramoto, sempre reconhecido pela cura que, o agora lente de anatomia, lhe tinha sabido fazer”.
João Bexiga relata-lhe a azáfama da quinta, o vinho que “está pronto para o senhor provar e levar na volta para Lisboa”. Mas Manoel Constâncio antecipa-se: “Então não passa de hoje… vai ser ao jantar… mas antes, convidamos estes senhores para nossa casa, porque quero entregar uma coisa à família que mora hoje na casa que construí”.
A assistência acompanha os figurantes para a entrega da carta de sangrador a Alexandra e Carlos Sousa pelo “próprio” Manoel Constâncio: “Dom Carlos Lopes de Sousa e Dona Alexandra Lopes de Sousa Venham até aqui. Quero-vos entregar um dos meus mais preciosos tesouros: A minha carta de Sangrador. Gostava que ficasse aqui na casa!”
O documento emoldurado foi trabalhado e restaurado a partir do original – que se encontra em bastante mau estado – por Luís Reis, professor da Escola Solano de Abreu e ficará exposto na casa primitiva de Manoel Constâncio.
Depois seguiu-se o jantar com a prova do vinho novo.