Escreve em pequenos papéis que traz sempre consigo as ideias que lhe ocorrem e guarda todo devidamente catalogado. “É o meu trabalho”, diz. Editou poesia em vários de Espinho e de Abrantes, mas o livro que vai ser lançado no sábado, editado pela Página Seguinte, Edições Lda, é de adivinhas.
“Fi-las quase todas ao pequeno almoço. Se estou a comer pão com manteiga e lembro-me de alguma coisa anoto”. Ema Simplício não sabe dizer porquê, mas as adivinhas “brotam”. “Adivinhar não é fácil e algumas não serão fáceis, mas todas têm lógica”.
O livro, com 60 adivinhas, está pronto a editar há mais de 20 anos, mas por adiamentos sucessivos só agora é apresentado. “Quase todas foram publicadas num jornal que já não existe, o ‘Notícias de Abrantes”, recorda
As adivinhas foram testadas numa passagem de ano familiar e o jogo foi um sucesso: “Foi muito interessante, um de nós lia uma adivinha à sorte e os restantes escreviam num papelinho o que pensavam ser a solução. Houve inúmeros disparates… Penso que é muito divertido para se jogar em família ou numa reunião de amigos”, diz.
E para além destas “Adivinhas das Minhas”, Ema Simplício tem mais livros do género prontos a entrarem no prelo, um deles destinado a crianças, ilustrado com desenhos dos netos. “Gostava de os publicar também, mas vamos ver como este corre”.
Ema Simplício é uma escritora compulsiva e começou a escrever aos 11 anos, “altura em que morreu a minha mãe. Senti que tinha que fazer alguma coisa para me abrandar a dor e comecei a fazer umas coisinhas, para atenuar a mágoa, porque eu tenho muito mais mágoas do que gracinhas. Tudo o que escrevo tem uma certa mágoa, senão não vem da morte da minha mãe, vem de outras coisas que têm vindo a moer-me”.
Quando a mãe faleceu, Ema estava a passar férias em casa dos tios no Tramagal. “Foi uma morte muito rápida, numa semana”. Ema ficou com os tios e foi no Tramagal que concluiu a instrução primária. “Fiquei sempre com uma grande ligação ao Tramagal, principalmente à família. Depois, o marido [arquitecto Adelino Costa] arranjou a casa que era da minha avó e eu vinha muita vez sozinha para cá. É no Tramagal que escrevi e escrevo a maior parte das coisas, sozinha. Em São Pedro do Estoril escrevo menos”.
Extremamente organizada, Ema Simplício tem três gavetas, uma de cada um dos filhos, onde guarda as cópias dos livros que tem prontos a editar. De adivinhas e de poesia.
“Dantes colaborava muito com os jornais regionais e andava muito contente, era uma forma de comunicar. Publiquei em Abrantes, em Espinho e na revista da Companhia do Telefones, no Porto, onde trabalhei durante 10 anos. Aí era a chefe da contabilidade que me pedia para eu colaborar na revista da Companhia”, recorda.
E só para aguçar a curiosidade adivinhe o leitor: “Verdinha na Primavera / Amarelada no Outono /Em cor caju se volveu / Pelo Inverno ao abandono / E rubra se desprendeu / Como sangrando em vertigem / De vento que não deterá… / Mas não deixa de ser virgem / Desde o Verão à Primavera”.