Passados 39 anos sobre o seu desaparecimento e, simultaneamente, do seu esquecimento da memória colectiva, a editora Ramiro Leão, de Gavião, dá à estampa a biografia Ester Leão – Uma Actriz da República. A obra será apresentada na 19ª Feira de Gastronomia de Gavião, no dia 17 de Julho, com a presença do autor. O evento será complementado com uma pequena mostra sobre o percurso de Ester Leão e ainda com a leitura encenada do episódio “Uma História de Boneca”, da autoria da actriz, também no dia 17, às 17h, na Quinta da Côca, em Gavião, por um grupo de actores profissionais e amadores coordenado pela actriz/encenadora gavionense Carla Chambel.
Um estudo levado a cabo por João M. A. Florindo, Mestrado em Estudos Artísticos e com uma Especialização em Estudos Teatrais e Performativos, que pretendeu fazer uma abordagem sintética da vida e obra desta actriz gavionense, encenadora, escritora e professora que depois de um percurso invulgar nos palcos portugueses, se auto-exila, no Brasil, na década de 30, do século passado (desiludida com as desavenças familiares, com o panorama político nacional e com o marasmo), para não mais voltar.
O desafio lançado ao autor, na reconstituição da vida desta actriz de temperamento irrequieto, envolvia riscos. Nem mais nem menos, uma viagem pelo percurso de Ester Leão mas também um percurso pela história e pelo património cultural, no 1º Centenário da Implantação da República em Portugal. Filha do médico, diplomata e republicano gavionense Eusébio Leão, que a 5 de Outubro de 1910 proclamou a República à varanda da Câmara Municipal de Lisboa, cedo viu contrariada, pela família, a vontade de se dedicar às lides do palco. Naquele tempo, o teatro era coisa para divas de vida e de reputação duvidosa e não ocupação para filhas-família com aspiração de ascensão social. E este não era o meio que poderia convir a uma jovem de família burguesa, de ricos comerciantes e políticos creditados (o tio e seu principal opositor era Ramiro Leão, conhecido comerciante com casa estabelecida no Chiado).
Ester lutou com todos os meios que tinha à sua disposição e em 1913, à revelia da família, estreia-se na peça “Assalto”, de Bernstein, com o nome artístico de Ester Durval, no antigo Teatro D. Amélia, hoje Teatro S. Luís, numa atitude que visava não só contrariar os anseios familiares, como também tentar que o seu apelido não pudesse ser associado à carreira político-diplomática do pai. Mulher determinada, culta, poliglota (falava inglês, francês e italiano que levou Beatriz Costa a tecer afirmações deveras interessantes apelidando Ester Leão de artista de grande cultura e que “falava inglês como eu falava calão”) travou uma árdua batalha contra a oposição da família, contra a rudeza da censura, a falta de companhias teatrais que sustentassem o trabalho dos actores. Ascendeu ao topo da sua carreira depois de somar muitos êxitos, entre eles “Maria Isabel”, “Alcácer-Kibir”, “A Filha de Lázaro”, “O Pasteleiro de Madrigal”, “A Severa”, “O Crime de Arronches” entre outros. Mas foi no Brasil que triunfou como técnica de voz, como actriz e como encenadora e directora teatral. Pelas suas mãos passaram nomes consagrados como Cacilda Becker, Nathália Timberg, Vanda Lacerda, Glauce Rocha ou Fernanda Montenegro. Torna-se pioneira no ensino da dicção e são famosos os seus cursos de Impostação da Voz, para aspirantes e políticos, que se queriam preparar para a vida parlamentar. Entre os seus alunos, para além de actores, contavam-se advogados, negociantes, leiloeiros, deputados, ministros e presidentes da República, todos notáveis oradores, como Santiago Dantas, Carlos Lacerda, Juscelino Kubistcheck, Roberto Campos, Ibraim Sued, Jânio Quadros, Getúlio Vargas, Trajano da Silva, Luciano Bitenccourt, entre outros. Foi também considerada uma das introdutoras da linguagem gestual para surdos-mudos no Brasil, ao lado de Lília Nunes. Decidiu o Governo brasileiro atribuir-lhe a Ordem do Cruzeiro do Sul, a mais alta condecoração brasileira, pelos serviços culturais prestados ao Brasil, comenda que o Presidente da República confere a personalidades estrangeiras.
“Um percurso invulgar” assim se refere Luís Farinha, autor do prefácio desta obra e Comissário da Exposição “Viva a República! 1910-2010”, patente na Cordoaria Nacional, sobre Ester Leão, e remata “no ano em que se comemora o Centenário da I República, o estudo monográfico sobre esta “diva brasileira”, nascida portuguesa, é não só um trabalho importante para a evocação memorial dos gavionenses, mas sobretudo um contributo valioso e imprescindível para a construção de uma história cultural do país.” |