Dificilmente o Rossio ao Sul do Tejo esquecerá o dia 5 de Fevereiro de 2026. Junto à marginal casas ficaram com mais de um metro de água e pessoas foram retiradas das suas casas.
Mas também houve quem ficasse sem o negócio de uma vida. David Mendes, 46 anos, viu o café Sasha - de que é proprietário - ficar completamente destruído: “Por volta das 5 horas da manhã o Presidente Valamatos foi-nos lá avisar para tirarmos tudo”. O homem já se tinha antecipado precisamente graças ao autarca: “Às 20.00h já me tinha avisado de que a água podia lá chegar. Já não saí de lá”.
A partir desse momento David, os familiares e amigos meteram mãos à obra: “Tirámos tudo o que conseguimos, coisas mais pequenas, mas os balcões grandes não conseguimos tirar. Eram muito pesados e já não tínhamos carros para aquilo...”, desabafa. Levou tudo o que tinha do café, que se situa na Praça dos Mourões, para sua casa, a cerca de 100 metros e também em risco de ficar alagada: “Tive de tirar tudo novamente e levar para casa de amigos, e o rés-de-chão da minha casa tive de o passar para o 1º andar. Foram duas noites e um dia sem parar”, relata denunciando muito cansaço.
“Foi tudo pelo Tejo abaixo”...
Quando a tormenta acalmou e David conseguiu ir ver a dimensão dos estragos, não queria acreditar: “Foi tudo pelo Tejo abaixo, não ficou lá nada. Estava tudo preso, mas a força da água rebentou com aquilo. Só ficaram lá pendurados os motores das máquinas, de resto a água levou tudo”.
Um cenário desolador que o deixou sem reacção: “Quando vi aquilo desabei”, reconhece. E não está a ser fácil reerguer-se: “Estive uma semana a chorar. Ia lá e chorava, voltava para casa e fechava-me sozinho a chorar...”, recorda cabisbaixo e incapaz de segurar a emoção.
Apesar de ser natural do Rossio ao Sul do Tejo, terra habituada a ver o Tejo galgar as margens, admite que “nunca pensei que fosse uma coisa desta dimensão. Talvez que fosse igual à de 2013, mas esta foi mesmo para destruir tudo! Além de galgar as margens foi a força com que a água passou”. David ainda não sabe quando pode voltar ao trabalho, mas sabe que quer regressar: “Tenho muito orgulho de estar ali, construí aquilo, é como um filho”. Por agora, está “à espera do seguro” sem saber o que fazer: “Dói muito ver aquilo assim...”.
Garante que a Câmara Municipal de Abrantes já lhe transmitiu a intenção de recuperar o espaço, e elogia a postura de Manuel Jorge Valamatos neste processo: “Ele foi espectacular”. Ao abarca, o presidente da Câmara Municipal de Abrantes garante que “já estamos a trabalhar para que o mais rapiamente possível aquele espaço volte a ter a sua actividade normal. O grande problema é que com tanta destruição é preciso encontrar as empresas e os trabalhadores para responder a tantas situações”.
O apoio dos amigos
David tem quatro filhos, dois dos quais ainda sob a sua alçada, e não pode estar parado. Nesta altura admite que o refúgio tem sido “o apoio dos amigos, agora é que vemos quem gosta de nós”.
A assistir à conversa está Jorge Almeida que apela ao esforço das entidades e à solidariedade da população para ajudar David: “Este colega-irmão tem de ser ajudado depois da catástrofe que houve. Aquilo é o ganha-pão dele!”. Major, como é conhecido, aponta ao “cansaço e tristeza do David”, mas deixa uma garantia: “Ele não vai parar, nós estamos cá para o erguer”.
Leia a reportagem completa na edição de Março do Jornal Abarca.