Em cada ano que passa, e sempre que o mês de maio se aproxima do dia 13, os caminhos do país salpicam-se de grupos de peregrinos que procuram assim uma experiência de vida singular, sobretudo em grupos mais numerosos de farpelas coloridas e sapatos bons e confortáveis, pelos caminhos que rumam a Fátima para renovar a fé que trazem consigo. É verdade que no renovado léxico da Igreja Católica Romana o vocábulo apariçõesfoi substituído por visões, e isso não é uma questão de lana-caprina, faz aliás uma diferença considerável porque reduz o que parecia uma verdade absoluta a uma confissão fugaz, subjetiva e incerta. O caso é que indiferentes a estes detalhes eclesiásticos, e porfiando com a sua fé e nas suas crenças no que representam Fátima e a Senhora lá avistada pelos pastorinhos, os grupos de peregrinos demandam a Cova da Cruz com os seus rituais mais beatos ou nem tanto, e parecem ganhar maior corpo de ano para ano. Integram sobretudo muitas mulheres, cada vez mais. Seguindo uma cruz e um pendão, que os há de identificar, e levando bordões, bonés, alguma mochila com garrafas de água, rezando quando e onde lhes parece, estes peregrinos, aqui a atravessar Vila Nova da Barquinha, procuram gerir as incertezas desgovernadas da vida, acreditando que estes rituais são talvez uma forma de controlar o que, de outro modo, parece fora do nosso alcance.