O preço dos combustíveis, e a incerteza no mercado, tem provocado verdadeiras dores de cabeça na economia mundial com reflexo no quotidiano das populações.
Em Portugal isso tem sido evidente com várias manifestações, a última das quais ontem, à porta da Assembleia da República, conduzida pela Confederação dos Agricultores de Portugal, que consideram a situação do sector insustentável.
Quem enche o depósito para ir trabalhar também nota diferenças. Um depósito de 50 litros de gasóleo simples custava 77,15€ há um ano enquanto hoje custa 107,40€ - um aumento de 39,21% na carteira dos consumidores que os salários não acompanham.
Subidas coincidem com crises
A última década não tem sido fácil para quem procura estabilidade financeira. Não é só o preço dos combustíveis que aumenta isoladamente, claro, tendo isso reflexos no preço do cabaz alimentar, no custo da habitação e, no fundo, de todos os bens que consumimos. Esse estrangulamento da carteira dos trabalhadores tem levado, inevitavelmente, ao crescimento do populismo, o que acarreta outros tipos de problemas.
Ao analisarmos o gráfico com o preço do combustível em Portugal, olhando especificamente ao preço médio do gasóleo simples a cada dia 13 de Outubro entre 2019 (pré-pandemia) e 2026 verificamos sem surpresa que as maiores subidas coincidem com as três crises globais que enfrentamos desde então.
O preço do gasóleo simples em 2019, antes da pandemia da Covid-19, era de 1,358€ por litro – menos 0,79€ por cada litro. Até baixou para 1,207€ por litro no ano da pandemia, 2020, fruto de uma quebra da circulação mundial, mas depois sofreu um aumento de 25,76% no espaço de um ano alcançando o valor de 1,518€/litro.
Mas não é tudo: em Fevereiro de 2022 a Rússia invadiu a Ucrânia, criando graves problemas de fornecimento energético, de rotas e de fornecimento global. A instabilidade no mercado fez-se reflectir directamente no bolso dos consumidores: ao aumento registado no ano transacto, o combustível voltou a aumentar 24,63% e alcançar o valor de 1,892€ por litro de gasóleo. Entre 2020 e 2022 o preço do gasóleo simples passou de 1,207€ para 1,892€ por litro, um aumento galopante de 56,75%.
Nos anos seguintes o mercado viria a ajustar-se e o preço foi baixando, sem nunca atingir os valores pré-guerra na Ucrânia ou pré-pandemia. Ainda assim, a 13 de Outubro de 2025, há apenas um ano, o preço do gasóleo simples em Portugal era 1,543€ por litro.
Contudo, no final de Fevereiro deste ano, surgiu a terceira crise global neste período – e provavelmente aquele com mais impacto nesta análise. Os EUA decidiram invadir o Irão que, em resposta, bloqueou o Estreito de Ormuz, canal por onde passava cerca de 20% do petróleo mundial (aproximadamente um quinto do abastecimento global ou cerca de 20 a 23 milhões de barris por dia).
Em consequência dessa crise, o preço voltou a disparar e atinge hoje o preço de 2,148€ por litro, o tal aumento de 39,21%.
Do Algarve a… Mascarenhas!
Decidimos então fazer uma simulação de qual o impacto directo nas viagens dos portugueses, utilizando como referência uma viagem que muitos gostam de fazer no verão.
Usamos como ponto de partida a cidade de Abrantes e viajámos até Albufeira. São 359 quilómetros que, tendo como referência um carro que gaste 6 litros a cada 100 quilómetros de viagem, daria o seguinte custo nos anos em análise:
2019 – 29,25€
2020 – 26,00€
2021 – 32,70€
2022 – 40,75€
2023 – 37,13€
2024 – 34,10€
2025 – 33,24€
2026 – 46,27€
Mas há ainda outra forma de ver a questão. Se os 29,25€ davam para ir até Albufeira em 2019, até onde nos levariam nos outros anos? O último ano em que daria para sequer chegar ao Algarve seria em 2021. Esses 29,25€ dariam para fazer 321 quilómetros o que nos permitiria chegar a Santa Susana, logo após a fronteira entre o distrito de Beja e o distrito de Faro.
Nos anos seguintes o máximo que esse valor nos faria alcançar seria o Alentejo, chegando inclusive a dar apenas para ir até ao nó de Castro Verde e Ourique.
Mas se esse cenário é desolador, este ano os tais 29,25€ que em 2019 nos levavam até Albufeira não chegam sequer para chegar ao Alentejo. Isso mesmo: neste momento esse valor daria para chegar até ao lugar de Mascarenhas, no concelho de Grândola, acima do rio Sado e, por isso, pertencente ao distrito de Setúbal.
A pior notícia, ainda assim, não é essa. É que os mercados não ameaçam melhorar a médio prazo, prevendo-se um agravamento desta situação. Não será de admirar, portanto, que o que dantes dava para chegar ao Algarve em pouco tempo leve os abrantinos a fazer férias algures na Marateca.