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08 MAR 2021
OPINIÃO | "O Tramagal, a Lã e a Neve", por Adelino Pires
Por Jornal Abarca

Nestes dias de clausura, aconchegado à lareira algures numa aldeia do ribatejo, não precisei dos safões de ovelha, do cajado ou do alfobre, nem sequer de assobiar ao Piloto para viajar serra acima, ajuntando o rebanho de ovelhas e cabras, que estas tudo roem porque tudo lhes serve.

Mesmo que pudesse, dispensaria as estâncias de ski, as férias na neve, as intermináveis filas de para e arranca para ver o branco e apanhar o frio. Basta-me uma espreguiçadela, esticar o braço e, da estante onde meia dúzia de livros aguardam que os folheie, escolher um a condizer com o tempo. A Lã e a Neve é um desses, intemporais.

Que só alguém que já antes vivera bem longe, numa Selva onde bebeu da coragem, provou da fome e carregou mais sonhos que borracha, conseguiria arrancar dali, daquelas paragens de centeio e lã, de pastores com tempo de mais para pensar e de menos para viver.

Poderá um livro ser assim tão distante e tão actual? Falar-nos dos pastos ao pé da porta, antes da floresta os empurrar serra acima, a eles e aos rebanhos que de Abril até à tosquia lá por alturas do São João, ao vale não regressam? Lembrar-nos o som da flauta de Horácio, o pastor solitário que trocara a liberdade das serranias pela prisão da fábrica grande, só pelo amor a Idalina? Ou do anarquista Nogueira, o Marreta, como carinhosamente gostava que o tratassem, que já com outras ideias, acamaradava como ninguém?

Mas para mim, intrigante mesmo, foi tropeçar no Tramagal, operário têxtil, personagem inesperada. Tentar perceber como foi ali parar, ali mesmo, àquele romance. Não, não foi por acaso. Porque nessa altura, noutra fábrica e noutro lugar, no Ribatejo, outras gentes labutavam também por um naco de vida melhor. Noutro Tramagal, então aldeia, onde tantos Horácios e Nogueiras fizeram o seu caminho.

Coincidência ou talvez não, o Tramagal deu assim a volta ao mundo. Porque Ferreira de Castro, o autor de A Selva, de Emigrantes, e de A Lã e a Neve, o escritor português mais traduzido no séc. XX (até Saramago), terá percebido que “o meio da tecelagem da serra é, em miniatura, toda a vida portuguesa, na sua imobilidade… na vida fabril e nos bastidores da vida proletária…”.

E não fora o seu prestígio internacional e talvez A Lã e a Neve viesse a ser apreendida pela Censura. O sucesso editorial foi imediato.

Publicado no pós-guerra, em 1947, dois anos depois ia já na 5.ª edição e não mais parou. Em França, só em 1950, três editores diferentes o publicaram e mais tarde uma das edições integrou mesmo uma fotografia de Henri Cartier-Bresson.

Não sei quantos tramagalenses terão tropeçado no Tramagal de A Lã e a Neve, ou nele se terão revisto. Nem mesmo quantos beirões se lembrarão das agruras de Horácio ou do latir de Piloto. “…os serranos, que, nas solidões da Estrela, ora pastoreavam as suas ovelhas, ora teciam a lã que elas forneciam, tornaram-se cada vez mais raros…
...mais do que sons de flautas pastoris descendo do alto da serra para os vales, subiam dos vales para o alto da serra queixumes, protestos, rumores dos homens que, às vezes, se uniam e reivindicavam um pouco mais de pão…”.

Publiquei este texto, agora revisto, há algum tempo no Mediotejo. Dias depois, o António Neto, velho tramagalense com a sabedoria que só o tempo aporta, escreveu-me, dizendo que sim, que esse tal Tramagal existiu mesmo. Que fez a viagem da terra para a serra, ao contrário de outros que vieram serra abaixo, para a fabrica grande, algures, numa aldeia entre o rio e a ferrugem.

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