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13 JUN 2021
OPINIÃO | "Mulheres e Mães! Ou Mais Do Que Isso", por Estêvão de Moura
Por Jornal Abarca

Na última crónica escrevi sobre as raparigas da minha geração que marcaram de forma decisiva a evolução da cidade de Abrantes, num processo social que nenhuma historiografia citadina foi até hoje capaz de reconhecer ou valorizar.

Na presente crónica irei escrever sobre essas outras mulheres, tão ou mais importantes do que as raparigas, que tiveram um papel inversamente proporcional em importância, à relevância que lhes é dado no fluir histórico da cidade: as nossas mães. As mães da minha geração.

Essas mulheres, de que os historiadores e os eruditos locais nunca falam (vá-se lá saber porquê!). Mas que, na sombra social, decidiam quase tudo e influenciavam tudo o que acontecia na cidade, sem pronunciamentos, sem visibilidade, mas com eficácia.

Não é sobre as mães, enquanto tal, que aqui quero escrever. É sobre as mulheres. Que soltaram as filhas e os filhos; que lhes deram asas enquanto a maioria dos pais estava mergulhado num conservadorismo servil ou no mínimo num conservadorismo apático.

Com parcimónia, respeito e admiração já citei, nestas crónicas, as mães de alguns de nós, para dizer como foram importantes no desbloqueamento de uma ou outra situação que tenho por muito representativa no marco evolutivo da cidade nos anos em que aí vivi.

O que é seguro e certo é que sem a “luz verde” dada pelas nossas mães, muita da evolução social não teria ocorrido. E sem a sua perspicácia de que algo estava a acontecer, muito rapidamente, tudo teria demorado mais tempo.

As nossas mães eram mulheres diversas: maioritariamente donas de casa; professoras algumas; funcionárias outras e profissionais liberais, não muitas. As nossas mães  também estavam socialmente divididas. Daí o haver algumas mães que raramente víamos, ou com quem pouco privávamos e outras que eram uma espécie de segunda mãe de cada um de nós.

Isso era a cidade nas suas diferenças sociais. Mais notórias na gente adulta e nas raparigas do que nos jovens e nos rapazes.

Embora “oficialmente” fossem os pais quem mandava e decidia, na prática quem mandava eram as mães.  Os pais, se assim se pode dizer, não contavam para nada. Quando se tratava de obter alguma coisa, fosse ligeira ou “importante” eram as mães quem decidia o caminho a seguir. Os pedidos disto e daquilo nunca eram feitos aos pais.

Numa palavra, na Abrantes dos anos 60 e 70 os homens (pais) pouco contavam para o que era a evolução social. E parte das mudanças fez-se mesmo contra eles.

As nossas mães, mesmo aquelas que aparentavam ser mais submissas e caseiras, pela influência que exerciam, em linguagem actual, eram autênticas líderes sociais e comunitárias. E esse papel aumentou à medida que a guerra em África entrava num beco sem saída e viam os seus filhos morrer ou regressar com problemas para sempre.

Sem essas mulheres que, na aparência, contavam pouco quando eram postas em confronto com os seus maridos (os pais) as mudanças sociais ocorridas na cidade de Abrantes não teriam tido lugar quando o tiveram. Talvez mais tarde, muito mais tarde.

A “porta fechada”, a tudo um pouco, foram elas que a entreabriram: ao deixarem os seus filhos terem liberdades até aí impensáveis. Ou, ainda mais importantes, ao permitirem que as suas filhas fizessem aquilo que nem era socialmente bem visto ou que elas mesmas nunca puderam fazer ou sequer um dia sonharam realizar. A sua tolerância e capacidade de abrangência das mudanças sociais foi, neste aspecto, o elemento determinante.

As mães d´Abrantes, a força ignorada das mudanças sociais que ocorreram na cidade nos anos 60 e 70, voltaremos a elas na próxima crónica.

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