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11 NOV 2010
GOLEGÃ: CAPITAL DO CAVALO TODO O ANO
Por RICARDO ALVES

 

A Feira de São Martinho transfigura por completo a vila Ribatejana. Na Golegã o cavalo reina. A Feira é para todos, a pé ou a cavalo. José Veiga Maltez, o presidente da Câmara Municipal da Golegã e da XXXV Feira Nacional do Cavalo, é um apaixonado pelo mundo equestre. A crise preocupa-o e encara-a de forma realista. Para Maltez, a feira é um acontecimento que deve encontrar a simbiose entre a “tradição e a modernidade”. Mas o objectivo do autarca é que a Golegã seja capital do cavalo o ano todo, não apenas durante a feira

 

A feira está a decorrer conforme o esperado?

Lindamente, o primeiro fim-de-semana excedeu as expectativas! Não só da própria feira, em que o primeiro fim-de-semana é só um aperitivo, mas também do próprio estado menos colorido em que estamos. A feira geralmente era panaceia e de temperamento sazonal, nesta fase de crise as pessoas procuram o que lhes anime o espírito e aconchegue a alma. A feira mais uma vez vai cumprir a sua função.

Tem sido dada especial atenção à cidadania e ao civismo?

Eu acho que cada vez está melhor. Mesmo na fase nocturna que nos vinha dando algumas preocupações, a coisas estão muito melhores. Nós, Portugal, também temos coisas com que nos orgulhar. Não é só este estado depressivo.

Em termos de afluência de visitantes também?

Extraordinário. Este último sábado teve mais pessoas que o do ano passado, via-se a manga cheia e no domingo à tarde também. Aquilo que costumo dizer é que a Feira de São Martinho, como eu lhe chamo sempre, é a 35ª Feira Nacional do Cavalo, 12ª Feira Internacional do Cavalo Lusitano. Estou convencido que ainda é das poucas feiras francas… as pessoas perguntam-me quantas pessoas vêm à feira, uns dizem que é meio milhão, outros dizem um milhão nestes quinze dias que aqui passam. Como é uma feira franca e livre não tem contabilidade, mas este ano penso que passam cerca de meio milhão de pessoas pela feira, durante estes quinze dias. Agora imagine o que é uma vila com quatro mil habitantes adaptar-se a esta afluência. Desde que se cumpram as regras… Eu lembro-me que quando entrei para a presidência haviam uns monos à entrada da igreja e só se passava com salvo conduto para dentro da Golegã. Eu não gosto de salvos condutos. Aqui tudo circula. Uma pessoa com debilitação física pode ser deixada à porta da feira, depois o carro circula. Temos um sistema de parqueamentos à entrada e um sistema de transfer gratuito, quem quiser vai. A afluência registada no passado fim-de-semana, se for exponenciada como é habitual, vai ser igual ou superior à do ano passado.

Falou há pouco na noite, uma componente da mistura entre a tradição e a modernidade?

Exacto, este ano fiz uma deliberação: os bares não fecham. Apenas tenho uma preocupação, a licença de ruído. Ligo muito mais a isso. Só se pode fazer barulho até às quatro da manhã. Se a música estiver baixa ninguém vai dizer nada. É que quando os bares fecham as pessoas têm tendência a ir para a rua ou para as suas casas mais rapidamente, e como prevenção, na minha qualidade de médico e não só, também ao nível da protecção civil e saúde pública, muitas vezes há graus de alcoolemia que devem esperar para sair. Portanto, não me importo nada que os bares estejam abertos e as pessoas saem quando lhes apetecer, não vêm é para rua! Quer-se deixá-los divertir em liberdade com responsabilidade. Acho que é muito melhor os bares terem abertura permanente.

Há um crescimento no número de bares e discotecas, quase perfazendo uma outra feira?

Há cada vez mais. Há aqueles que gostam dos cavalos, de ver e observar os cavalos e há aqueles que aproveitam esta manifestação equestre para descomprimir e descontrair. As pessoas têm necessidade disto, de quebrar as suas angústias do dia-a-dia e virem divertir-se cá dentro, como se diz no turismo “Viage cá dentro”. Isto é uma forma de viajar muito menos onerosa, em vez de andarem a sair do país. Há pessoas interessantíssimas que me dizem assim, “o senhor nem imagina aqueles que são mesmo apaixonados pelo cavalo”. Quando surgem as crises económicas, e há pessoas que compram o cavalo por espavento ou sinal de riqueza, esses são os primeiros a largar o cavalo, quando as coisas começam a correr mal. Aquilo que não lhes é intrínseco é a primeira coisa a ir-se embora. Agora aqueles a quem lhes é intrínseco, da alma, fazem grandes sacrifícios para vir, porque a vida não lhes está a correr da forma que queriam. Esses é que são os que verdadeiramente fazem a Feira. Os outros são modismos e hábitos passageiros mas estas é que são as verdadeiras e são estas é que subsistem e dão alma à feira, que se passeiam pela feira com liberdade e responsabilidade. Havia outros que tinham adquirido e que não tinham interiorizado. Não era sentido. Houve uma pessoa que me disse, “sabe, cada vez que vou para a feira levo a mulher, o meu filho, os funcionários para tratar dos cavalos, não queira saber, uma semana na Golegã sai muito mais barato que umas férias nas Bahamas. São as minhas férias, é o que eu gosto e por isso é para aqui que eu venho”. Algo se clarificou aqui, podem continuar a vir pessoas correctas e incorrectas, respeitadoras e outras menos, isso faz parte. Mais cidadania traz uma noite melhor, talvez seja fruto de clarificações ou de amadurecimento. Havia mais jovens antes e hoje são mais adultos. Isto é um fenómeno sociológico.

Essa habituação traz também um sentimento de pertença nas pessoas, de ser um pouco da sua casa e tratam-na melhor?

Exactamente, torna-se a casa deles e eles próprios querem respeitar o que é seu e ficam ofendidos se alguém a
desrespeita.

Mais ainda se a ‘vila museu’ é uma vertente da Golegã?

Estes monumentos que temos espalhados pela terra era uma ideia de quando me candidatei, que era contar a nossa história com várias figuras, como se fosse um museu vivo: é a locomóvel da primeira metade do séc. XX, é o campino com a vara a enrolar um cigarro que fui eu que imaginei, a estar a enrolar o cigarro e a olhar a lezíria, é o toureiro Manuel Barreto, é a escola mestre Patrício, é o próprio cavalo… Aquele homem que ali está [junto ao Equuspolis], que dizem que é um monumento ao cavalo lusitano, para mim é um monumento ao cavalo mas não só. É o homem que pode ser o criador, o proprietário, ou o que trata dele todos os dias. Aquele homem são três, e vai a caminho da feira, o cavalo tem um ferro da feira. É uma maneira de contar a história. Nós temos esta história que está contada de uma forma estática e depois de uma forma dinâmica, na feira, em que parece que são peças que saem do museu e de repente se animam e começam a desfi lar, com a jaqueta. Isto é uma coisa que se passa de geração em geração. Ao contrário de outras coisas que há no país isto não é uma reinvenção folclórica. Na Golegã a tradição não é inventada, ela é reinterpretada e reelaborada e quem vier a seguir deve a preocupação de nunca tirar a feira do sítio onde está. E agora com o Centro de Alto Rendimento (CAR), a que nos vamos agora candidatar e assinar o protocolo de fi nanciamento, ela pode ser uma complementaridade. Este CAR é a cereja em cima do bolo das infra-estruturas que temos granjeado, porque tudo isto foi feito para tornar a Golegã a capital do cavalo durante o ano inteiro. Para não ser apenas desde um dia antes do São Martinho a um dia depois do São Martinho. Repare o que aconteceu com a feira nacional da agricultura, em Santarém. Quando a tiraram lá de cima e a puseram no CNEMA, o qual é extraordinário…

… mas não se sente estar no Ribatejo…

…exactamente, eu tanto posso estar em Frankfurt como em Paris se não fosse pelo aspecto do bairro de Santarém com o seu olival, que é óptimo. Mas descaracterizaram a feira. E nesta aqui, a vertente desportiva poderá sempre ir para o CAR na altura da feira, está a um quilómetro de distância, e deixamos a vertente clássica e tradicional no largo porque é um espaço único. Há dois termos em Portugal, interessantíssimos, que fazem parte de todas as terras: o rossio e o arneiro. Não se lhe pode tirar as características e quem vier tem que ter a responsabilidade de fazer a simbiose, a coabitação, entre a tal tradição e identidade e os usos e os costumes do séc. XXI, da modernidade, porque acho que são tão necessários e desejados.

E essa foi uma meta que estabeleceu para a feira quando entrou para a Câmara?

A fi losofi a subjacente a tudo isto é agarrarmos naquilo que o passado tem de bom, porque o tem apesar de outras más, para servir de estímulo para o presente e referência para o futuro. Nós somos, fomos. Como isto foi transmitido, isto é um espectáculo espontâneo, obrigatório e não é reinventado. Com as vicissitudes todas que tem tido, as crises políticas e sócio económicas, a começar no fim da monarquia, primeira e segunda república, pobre ou nobre, mas como ele é verdadeiro mantém-se, tem uma base erudita e popular. Tal como temos na arquitectura goleganense, a arquitectura rural portuguesa é das arquitecturas rurais mais bonitas da Europa.

Ao nível imobiliário a Golegã também tem passado por grandes alterações?

Nos outros concelhos não há construção, o nosso está a crescer. As transacções, é evidente, não são como desejávamos. Não como até há dois ou três anos. Mas há pessoas a apostar na Golegã, porque as pessoas vêm à procura da essência, da preservação da arquitectura, e sentem-se bem, por isso não nos podemos queixar.

Então as pessoas vêm à feira, gostam e decidem estabelecer aqui habitação?

Sim, compram a casa e depois como há a Expo Égua em Maio… É aquilo que eu costumo dizer, nós geralmente temos o Verão de São Martinho na altura da Feira e eu gostava de ter um São Martinho de Verão que era a Expo Égua, que é para as pessoas virem à romaria. Penso que as pessoas fazem cada vez mais essa busca dos valores que acham essenciais. Sabe, esta crise primeiro foi fi nanceira, depois passou a económica mas é sobretudo estrutural e depois acaba numa coisa que é o sistema político, que está completamente degradado. Vamos ver como é que as coisas correm, mas estou certo que vamos passar por tempos mais difíceis, não tenho dúvida nenhuma.

Mas está optimista?

Estou realista sobretudo, mesmo os mais optimistas vão experimentar humores depressivos, porque a vida não vai ser mais aquilo que foi até agora. Isto é mundial. Portanto, as pessoas têm tendência a agarrar-se às suas origens, aos seus gostos e àquilo que as faz sentir bem.

Há pouco falava sobre o CAR. Qual é o objectivo de o trazer para a Golegã?

Vai ser o CAR dos desportos equestres. Era o desejado, por uma razão muito simples: fazia todo o sentido. A câmara adquiriu oito hectares entre a praça do cavalo e a praça da água para instalar o CAR. A Golegã e Portugal têm de captar equipas estrangeiras. Por exemplo, a equipa Brasileira tem de ter várias fracções na Europa para fazer mundiais, se querem chegar aos jogos olímpicos. Em Novembro e Dezembro se calhar estão a estagiar com menos quatro graus centígrados na Alemanha. Outros estarão a jantar ou a almoçar em França. Se nós conseguirmos que as equipas sul-americanas venham estagiar aqui, pousam aqui os cavalos e vão de avião. Se lhes dermos as condições. Num outro aspecto é boa para todas as vertentes, porque acho que tínhamos que ter um centro de treino e estágio para corridas a galope, por causa das apostas. Acho que as apostas têm de vir para Portugal. Estou farto de sensibilizar imensos membros do governo para esse efeito. Por exemplo, na Bélgica, na Inglaterra, em França ou na República checa, quando fazem corridas cerca de 6 a 7 mil postos de trabalho são criados. Houve aqui um problema entre os casinos e a Santa Casa da Misericórdia pois estes viam com algum prurido a introdução das apostas em Portugal. O imposto e o encaixe em Inglaterra são 25 milhões de libras cada vez que se processa um grupo de corridas. Imagine só o que era se a Fundação Alter Real, que é património equestre do estado, que se vê em difi culdades, ter uma capacidade de encaixe que poderia ter um rendimento destes. O estado tem de procurar fontes de rendimento, pôr a circular e não criar contracções na economia.

E a Golegã seria então um ponto nevrálgico nessa dinâmica?

Uma das coisas pelas quais eu ainda não entrei é pela demagogia, ou pela megalomania. Só fazemos coisas que podemos, pontapé pela perna, por isso é que é um concelho que não tem indústria, que vive do sector primário e que se pode orgulhar de ter uma dívida como uma empresa grande, 700 mil contos. Quem é que não gostava de ter uma dívida de 700 mil contos? É a nossa. Ainda temos o dobro da capacidade de endividamento fi nanceiro, 50% nesta altura do campeonato. Portanto, fazer um centro que tivesse área sufi ciente para um raio de curvatura para uma corrida internacional iria desgastar os cofres autárquicos e nós temos prioridade. Hoje, mais que nunca, há outras prioridades. O CAR está feito é para treinos de corridas, para quem quiser treinar, é um centro de estágio, não é um centro de corridas. Um dia se puder fazer um hipódromo será óptimo, mas vamos começar com cabeça tronco e membros. Já foi para Diário da República. Estamos com as condições ideais para fazer aqui treinos. Quem tiver pernas para fazer grandes hipódromos… Por enquanto nós não as temos, não vale a pena estar aqui a
chorar…

…Pelo menos já terá aqui atletas para utilizar esse hipódromo…

Exactamente! Isso é muito importante, porque no fundo é o primeiro centro de alto rendimento, e à partida será o último, em Portugal. Penso que estão a acabar, segundo tenho ouvido da secretaria de Estado do Desporto. Congratulo-me por ter sido a Golegã a escolhida, e eu acho que nós temos muito a nosso favor. A nossa situação geoestratégica: está a uma hora de Lisboa, a cinco minutos do Entroncamento, temos aeroporto, temos comboio, temos boas auto estradas… está no sítio ideal. Agora, estou certo que a vinda do CAR vai trazer outras mais-valias. A Golegã já é conhecida pela sua restauração, pela hotelaria, até tem o hotel de charme da Europa, o Lusitano, e as pessoas começam a procurar a Golegã durante o ano por isso. É aquilo que eu gosto de desenvolver, o turístico-cultural. Há muitos que me dizem que a Golegã é só cavalo. Não. O cavalo é um cluster, é o chamariz. Depois tudo o que anda à volta do cavalo é que é importante para nós. Aqui vive-se realmente o cavalo, fi zeram um estudo que viu Jerez de la Frontera, viu cidades em Inglaterra, penso que em França, e a conclusão é que é aqui é que se vende e sente mais o cavalo. Nós queremos que venham à Golegã e que conheçam a região. Já viu a complementaridade que há aqui à volta? Nós queremos continuar a ser rurais. Não queremos ser urbanos nem suburbanos. Queremos ser uma boa vila e não uma má cidade. Temos uma grande vantagem mas não há complementaridade intermunicipal. Vem alguém aqui ao Museu Ferroviário, no Entroncamento, visita o Equuspolis e a Casa Relvas na Golegã, o Convento de Cristo em Tomar, Abrantes, Torres Novas. Nós temos as cidades todas aqui! Mas queremos essa complementaridade. Aliás, na Feira a economia local é muito oxigenada mas a regional é imensa, porque não há aqui lugares vagos nas cidades das redondezas.

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