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03 NOV 2011
O QUE O TEMPO LEVA E TRAZ, COMO O MAR, NO CENTRO DO RIBATEJO
Por RICARDO ALVES

 

A feira de São Martinho vincula-se eternamente à memória dos que a viram crescer. Não há memória finita demais que não sirva de base ao dealbar histórico da cultura equestre na vila ribatejana. Tudo interessa, até porque os tempos mudaram e mudam constantemente. Se havia uma feira para ricos e outra para pobres, 30 e muitos anos depois tudo e todos se misturam

 

São 11 da manhã. Dirigimo-nos ao Lar da Santa Casa da Misericórdia da Golegã (LSCMG). A Feira do Cavalo, vulgo Feira de São Martinho, está demasiado generalizada nos seus traços para que novas gerações a conheçam. Com uma pista de uma goleganense, dirigimo-nos ao lugar de memórias constantes, que pairam sem que se lhes seja dada atenção, em busca de algo menos perene, algo que tenha permanecido, algo que faça da feira aquilo que ela sempre foi. Onde o tempo parou, leia-se ‘ficou gravado’, a Feira ganha contornos de cheiros distantes apesar de presentes. Olhares nostálgicos, veios de história sem os luxos e luzes que actualmente conhecemos, nesta frenética luta contra o tempo e o desperdiçar de ensinamentos que o mundo moderno, simplesmente, nos roubou.

De 4 a 13 de Novembro a Golegã será invadida por muitos amantes dos cavalos, mas também o será por quem apenas vê a feira como uma feira. Onde se compram chapéus parecidos com os da série ‘Bonanza’, onde os relinchos constantes evocam tempos medievais, de batalhas épicas de copo cheio e comportamentos vorazes, onde a convivência com as belas montadas e seus cavaleiros prenunciam uma viagem turística ao passado. Nada disto será verdade, apesar de o ser, em último reduto.

No LSCMG encontrámos pessoas que recordam o São Martinho como se ontem estivesse ao vira da esquina. Todos os inquiridos relembram a simplicidade ancestral da feira ribatejana, “havia a feira dos ricos e depois a dos pobres”, lembra Maria de Lurdes Vandaci, de 93 anos, ela que nasceu no mesmo sítio em que hoje está o Lar. “Havia 15 dias para a feira dos ricos e outros 15 para a dos pobres”. Maria de Lurdes conta que “antigamente faziam-se toiletes para os ricos”, ela que era modista das senhoras ‘ricas’. A modista de 93 anos lembra com saudade os tempos em que o “Rei de Itália, e os Sommer de Andrade vieram à Golegã”, há 50/60 anos. Maria de Lurdes viu o seu primeiro filho nascer em Setembro num ano longínquo e logo em Novembro estava na feira na Golegã, ossos do ofício. “Trouxe-o numa alcofa para a feira, cheguei e foi uma festa. Toda a gente falava sobre o meu filho na seira, e mostravam-se curiosos por ser tão pequeno”.

Dona Clotilde, 84 anos, recorda a vida que transbordava da casa em que trabalhava: “Faziam-se grandes negócios e estavam sempre a contar histórias. Era uma animação constante”. Clotilde era empregada em casa de proprietários de cavalos e é da opinião que “hoje não se fazem negócios como dantes, hoje nota-se menos”, conta. Maria de Lurdes reforça a ideia: “Dantes assistíamos às negociações, já hoje é mais… secreto”.

José Manuel, 50 anos, tem “pena que a feira tenha deixado cair os divertimentos”. Falamos das diferenças entre a feira dos ricos e a dos pobres. “O picadeiro era desmanchado e o espaço dava lugar às barracas e aos divertimentos como o ‘Fosso da Morte’”, e de repente há um espanto geral entre os inquiridos. O ‘Fosso da Morte’, hoje quase extinto, era uma atracção muito requisitada em que um artista circense desafiava a gravidade num funil gigante em que acelerava impiedosamente montado numa moto. “Não era só isso, era o circo, os carrinhos de choque e os carrosséis, mas isso desapareceu”, afirma José Manuel. Não desapareceu, afirmamos nós. Os carrinhos de choque, por exemplo, estão longe do picadeiro central, nas mangas agora exclusivas dos cavaleiros trajados. Mas existem.

Maria Gorujão Miguel, 69 anos, reside numa das principais ruas em que a feira se realiza: “Na minha rua há um pátio e vi homens e mulheres a dormir no chão, e vi muitas telhas da minha casa serem partidas!”. Festa rija aparentemente. “No Largo do Arneiro havia sempre picaria. Lembro-me do meu pai a andar à volta de uma árvore com um bezerro e eu em cima de um carro de bois a assistir a tudo”. Mas as suas memórias não se ficam por aí: “Havia uma fonte com uma pia e o touro lembrou-se de subir para os degraus e foi ver as pessoas a caírem para dentro da pia, todas molhadas. Uma animação, nunca mais me esqueço”, lembra Maria Gorujão.

Dantes a divisão, hoje a mistura

Sociologicamente falando, as profundas alterações na feira de São Martinho, nomeadamente no que concerne ao extinguir das barreiras entre classes sociais - ricos e pobres -, condensada que está no seu todo em uma semana apenas de celebração equestre, o evento trouxe e traz problemas na sua reformulação.

A opinião é geral, a Feira de São Martinho tem hoje mais cavalo, como Maria Gorujão explica, “só falta uma praça de touros”. Maria de Lurdes afirma que a “câmara tem sido excepcional, nunca a Golegã foi tão bem estimada “. De facto, basta falar com criadores, cavaleiros, populares, para perceber que a Golegã é mesmo a capital do cavalo, hoje mais que nunca, e a feira também é noite, discotecas e bares, gastronomia e quinquilharia, uma mistura que se sente, entre ricos e pobres, onde cada qual tem o seu lugar, pintalgada por todo o lado com os cavalos.

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