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03 NOV 2011
GUARDIÃES DA TRADIÇÃO EQUESTRE
Por RICARDO ALVES

 

As coudelarias são os fiéis depositários e transmissores de uma cultura equestre secular na Golegã. O Puro-Sangue Lusitano é o ex-libris desses lugares mágicos em que se criam verdadeiras obras de arte da natureza, e cada criador, com a sua personalidade, imprime características muito próprias aos seus cavalos

 

Coudelaria Manuel Veiga

Manuel Veiga recebeu-nos na sua propriedade, a Quinta da Broa, a Azinhaga. A raça lusitana, cavalos que são criados há quase 200 anos na Golegã, é o centro de todo o trabalho diário e foi o bisavô de Manuel Veiga que impulsionou a coudelaria. “Esta quinta está na nossa família desde 1830 e desde então que aqui se criam cavalos. Nessa altura, os cavalos e éguas serviam para trabalho no campo, foi aí que tudo começou, a própria selecção. O meu bisavô, que era engenheiro zootécnico e agrónomo, tinha uma grande sensibilidade, ele é que deu todo o nome à Coudelaria Veiga. Preocupava-se muito com a funcionalidade do cavalo e essa foi a sua grande habilidade: um cavalo fino que adivinhava a vontade do cavaleiro. Foi uma pessoa fantástica na época e acho que nós temos conseguido continuar e melhorar”.

Para Manuel Veiga, o Puro-Sangue Lusitano “é um cavalo de uma docilidade, finura e carácter fantásticos”, e em particular os seus, “e não é fácil, mas conseguimos muitas vezes influenciar os cavalos com a nossa maneira de ser. No caso do cavalo Veiga acho que tem que ver connosco, é uma criação nossa, faz parte de nós há muitos anos”.

A Feira de São Martinho traz-lhe muitas recordações, “vou à feira desde pequeno nunca falhei uma. As recordações são fantásticas. Isto é único no país, numa terra como a Golegã temos todos estes visitantes!”. O segredo de tanta afluência explica-o pelas características da vila e seus habitantes: “Adoro esta minha terra, é única. Sempre foi do mais simpático que há e graças ao meu primo, presidente da câmara, tem-se sabido cuidar dela”. A internacionalização da Feira é um objectivo que os organizadores perseguem e para que tal aconteça Manuel Veiga considera que todos têm que se esforçar no cuidar da Feira que “tem evoluído, está melhor mas há muitas coisas que podemos melhorar. Lá fora vemos tudo muito bem apresentado, as pessoas não vão vestidas de qualquer maneira para o recinto das apresentações. É importante que tenhamos esse cuidado, pois os estrangeiros ligam muito a essa imagem. Temos de apresentar-nos aos que nos visitam como pessoas que sabem receber bem, que
somos pessoas que cuidamos da tradição. Podem vir vestidas à portuguesa, espanhola, inglesa, mas têm que ir bem apresentadas”.

Coudelaria Manuel Assunção Coimbra

O avô de Manuel Assunção Coimbra, João Assunção Coimbra, formou a coudelaria há cem anos. Comprou algumas éguas ao Marquês de Castelo Melhor, na altura Peninsulares, e fundou a coudelaria. “Depois começámos a alargar sempre a garanhões ‘Veiga’ e hoje temos praticamente essa linhagem, quase pura. Os nossos cavalos são principalmente para o toureio e ensino”, conta Manuel Coimbra.

A coudelaria situa-se no centro da Golegã e em pleno palco da Feira do Cavalo que, no fundo, passa um pouco por toda a vila. Por altura do evento, as portas estão abertas aos visitantes: “Recebo amigos e estrangeiros, que vêm visitar a feira, relacionados com o cavalo lusitano, e alguns toureiros. Às vezes aparecem cá pessoas interessadas em conhecer a coudelaria e tenho as portas abertas. No recinto, tal como todos os outros criadores, tenho um pavilhão e os nossos cavalos andam pela feira”.

Mas nem sempre a coudelaria esteve ali sediada, “o meu avô tinha a casa agrícola na Quinta da Melhorada, onde formou a coudelaria. Aqui é a casa do meu pai”. Também a mãe de Manuel, D. Maria Domingues Coimbra, é uma
apaixonada por cavalos, uma das famílias que mantém a tradição equestre e reforça a divulgação da raça Lusitana. Manuel Coimbra tem actualmente mais de trinta animais, “éguas e poldros, só lusitanos”.

O criador de 52 anos, afirma que a crise já se faz notar no negócio dos cavalos: “Foram muito afectados pois muita gente compra como hobby. Dantes vendia-se de uma maneira e hoje já há mais criadores e mais oferta. Esse é um dos problemas. Depois as pessoas hoje até podem comprar cavalos já montados e arranjados para toureio e ensino mas está mais difícil. Eu já reduzi a minha coudelaria, e agora tento apenas manter. A crise atingiu todos os sectores e os cavalos não fogem à regra”. Com a Feira do Cavalo à porta as melhorias podem aparecer pois “a Feira de São Martinho sempre foi muito importante e quando passou a ser designada de Feira do Cavalo teve uma projecção muito grande internacionalmente. Acho que é única no mundo”, considera. 

Coudelaria Coimbra de Castro Canelas

José Castro Canelas tem uma pequena coudelaria na Quinta de Santo António mas aposta forte na qualidade dos cavalos que cria. Diz ser um dos casos cada vez mais raros de criadores que também são agricultores, como acontecia com frequência há cerca de 20 anos. Ultimamente, afirma, “têm aparecido imensas coudelarias e poucos criadores são agricultores. Há pessoas de todas as profissões que são criadores nos tempos livres, com muito mais possibilidades para investir no desenvolvimento dos projectos, e isso nota-se na qualidade dos produtos”. Na sua coudelaria cria essencialmente cavalos Lusitanos mas também cavalos Português-Desporto. “É já uma tradição criar cavalos para desporto. A coudelaria foi criada pelo meu bisavô, João Coimbra, a minha avó ficou com um grupo nas partilhas. Posteriormente passou-se a usar os cavalos de desporto para nossa utilização pois tanto o meu pai, como eu praticávamos modalidades (atrelagem, obstáculos, concurso completo) menos indicados para
cavalos Lusitanos. Há uns anos voltámos de novo ao Lusitano com mais expressão. A égua lusitana é a base da coudelaria”, conta.

O objectivo deve ser sempre “a venda de animais de qualidade, criar em função do mercado”. Os cavalos de Desporto têm sido sempre para o mercado nacional, já o lusitano é vendido também internacionalmente.  “Essencialmente queremos ter bons animais e sermos homogéneos. Sempre que possível melhorar as qualidades físicas e as psíquicas que são importantíssimas no cavalo. Seleccionamos pelo carácter dos progenitores”. Há gostos variados entre os compradores, “pessoas que se apaixonam pela cor do cavalo, pela cabeça bonita, os olhos, e depois há pessoas que estudam o cavalo, os seus andamentos, se tem formas físicas que lhes agrade e a sua índole, se é fácil, mais complicado”. Mas há um aspecto fulcral na escolha de um bom cavalo, “as cabeças dos cavalos, o seu interior, depende imenso de cavalo para cavalo. Tentamos escolher os que têm boas características psicológicas. Há cavalos que fisicamente são maravilhosos mas depois são  complicados”.

Já sobre a Feira do Cavalo percebe-se a ligação de José Castro Canelas pela resposta dada imediatamente após o surgir do tema. “A minha primeira saída de casa foi com um mês para ir à Feira. Há 50 anos que vou à Feira e evoluiu brutalmente nos últimos anos”.

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