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20 DEZ 2017
CICLO DE VIDA
Por Jornal Abarca

Dias tristes e cinzentos. O rei-sol só consegue transmitir uma luz branca sem brilho.

A chuva, bênção divina, fonte de vida, atenua a calamidade que transforma os rios em tímidos regatos. Nos campos ressequidos desponta uma frágil vegetação. As árvores despiram-se, sem que antes, numa despedida, ostentassem quentes tonalidades de esperança.

Qualquer dia, a vida vai renascer. Mas até lá...

Nascer e morrer fazem parte do mesmo ciclo. Por educação, religião, crença, fé, ou lá o que for, pelos menos para nós ocidentais, a morte é sempre um corte e com ele a incapacidade de ouvir a voz dos que partiram, de sentir a sua pele, de olhar nos seus olhos...

Para atenuar a dor, até às festas da fertilidade, quis o calendário introduzir a festa da família, em torno do nascimento do Menino Deus. Os homens, “transmitindo” a vontade dos deuses, arranjam sempre um escape para suprir o que mais os atormenta.

O Natal está a chegar e com ele (quero acreditar) o reencontro à mesa da consoada. O doce calor do conforto de quem connosco partilhou grande parte das nossas vidas, mesmo que o seu lugar, deixado vago, seja ocupado por outros bem mais novos... De quem connosco apanhou musgo nas pedras e nas pernadas das árvores; de quem nos ensinou a magia de transformar farinha, ovos e açúcar em doces delícias. De quem em grandes panelas afogava a couve para o bacalhau alto e suculento que lascava ao primeiro toque.

Mais do que as luzes, mais do que a corrida desenfreada pelas ruas atoladas, mais do que os embrulhos coloridos, mais do que tudo o que pouco dura, é a arte de saber sentir. Faz parte do ser e tal como a vida renasce para mais um ciclo.

“Chove. É dia de Natal
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse 
O Natal da convenção,

Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra

Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa, in ‘Cancioneiro’

Bom Natal e Bom Ano Novo!

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