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01 FEV 2018
Antero Guerra Inácio: "Pintar tem de ser um prazer"
Por Jornal Abarca
Antero Guerra Inácio é um homem das sete artes, mas a pintura é a sua paixão. Tem uma experiência de vida imensa e fascinante. Considera que os artistas são uma classe abandonada e actualmente prepara uma exposição com os retratos que já desenhou.
 
Fale-nos um pouco do seu trajecto de vida e do seu percurso em termos artísticos.
Nasci na aldeia de Demó, no concelho de Porto de Mós, uma aldeia na altura muito remota, longe de tudo. Os meus pais acharam que não seria o local ideal para construir o futuro dos filhos e então decidiram vir para Torres Novas. Isso significou ter acesso a um tipo de educação e um modo de vida mais rico do que não havia lá na aldeia. Isso permitiu me conhecer materiais que eu não imaginava e foram precisamente a forma de eu continuar a desenvolver aquilo que era um prazer nato.
 
Quando é que sentiu que pintar e desenhar eram um prazer nato?
Foi logo na escola primária, por volta dos seis ou sete anos.
 
Nessa altura deveria ser difícil ter instrumentos para trabalhar…
Na minha aldeia pura e simplesmente não existiam. Aqui em Torres Novas já era mais fácil porque víamos outros colegas com caixas de lápis de cor, blocos, era diferente.
 
E foi aqui que fez os estudos?
Fiquei-me por aquilo que é hoje o 6º ou 7º ano, a partir daí foi uma auto-aprendizagem. Sem nunca perder de vista a pintura que cada vez se entranhava mais, pelos livros que ia comprando, pelos museus que ia visitando…
 
Pela sua experiência, porque sei que já visitou muitos países, e pela sua visão de artista, qual o museu que mais gostou de conhecer?
É difícil… não querendo falar nos mais comuns como o Prado ou o Louvre, gostei muito do Museu de Arte Moderna de Dusseldorf, na Alemanha, que visitei recentemente. Fiquei encantado… Em Portugal gosto muito do Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha.
 
Recuando um pouco, quando termina os estudos que percurso segue?
Bem, com 14 anos comecei a trabalhar numa empresa perto de minha casa. Os meus pais trabalhavam na agricultura mas eu vi que aquilo não era para mim [risos]. Nessa empresa de reclames luminosos, a Arta, logo viram que eu tinha algumas capacidades artísticas e colocaram-me no departamento de desenho. Fiquei lá até à tropa, que fiz no Entroncamento, e foi nessa altura que casei…
 
Tendo em conta que a sua mulher é austríaca, como é que a conheceu?
Havia na altura, em Torres Novas, uma coisa que era o Centro de Juventude, uns serviços que o Estado criou, ainda em ditadura, e que aqui funcionava extremamente bem. Havia vários departamentos, de teatro, fotografia, jornalismo, artes plásticas, etc., e eu fui coordenador das artes plásticas…
 
Já lhe reconheciam o talento…
É verdade [risos]. A certa altura o Centro de Juventude organizou um centro de férias em Oeiras. No último dia, já estava a entrar no autocarro para regressar, quando vi três meninas a pedir algo para acender o cigarro e eu como era fumador não tive problema nenhum em oferecer... gerou-se conversa. Trocámos endereços e ficou aberta uma porta de comunicação, muito diferente do que é hoje. Trocámos cartas durante quase seis anos, ela às vezes vinha cá, eu também lá fui algumas.
 
Foi nessa altura que fez um interrail?
Sim, até fiz vários na verdade. Antes dos vinte anos. Deu para conhecer a Europa e aproveitava e passava pela Áustria [risos].
 
Acha que esse conhecimento da Europa, que no fundo é conhecer novos mundos, o enriqueceu enquanto artista?
Penso que sim. Eu lia e via cinema mas sentia que vivia num mundo extremamente pequeno. Só essa sensação de sair e sentir o diferente era marcante para mim.
 
Sendo os seus pais de um meio rural, não foi um choque para eles essas escolhas?
Não. Só foi um choque quando eu quis sair da Arta, não me sentia bem no meio daquela confusão toda quando foram as nacionalizações, e isso fez confusão ao meu pai. Disse que ia para a Áustria e ele perguntoume se já tinha emprego e quando ia e eu, sem emprego, disse-lhe “vou agora”. Foi a única vez que vi o meu pai soltar uma lágrima.
 
E quando voltou?
Depois de meia dúzia de meses a viajar, as coisas começaram a ficar difíceis. Eu não falava a língua, teria que me sujeitar a qualquer emprego, e não estava inclinado para isso, por isso decidi voltar. Entretanto abriu o Gabinete de Apoio Técnico (GAT) no município de Torres Novas, fui para lá trabalhar como desenhador e fiquei dez anos. Nessa altura, nasceram os meus filhos e foi aí que deixei de pintar... foi de um dia para o outro.
 
Saiu do GAT porquê?
Naqueles anos era tudo feito a régua e esquadro e eu sempre disse aos meus colegas que não iria ficar ali para sempre. Achava que depois de uns anos aquilo ia estar ultrapassado e decidi sair para abrir a minha própria empresa. Senti que se não fosse naquela altura, nunca seria. Sempre tinha gostado de me dedicar aos filmes e à fotografia e estava a aparecer o vídeo nessa altura. Abri então a Atlantis Vídeo e foi uma experiência muito divertida.
 
Fazia produção de vídeos?
Sim, andava sempre com uma câmara enorme atrás. E foi nessa altura que tive um canal de televisão pirata, a partir de Torres Novas. Fazíamos entrevistas, reportagens das festas, éramos um grupo pequeno mas foi uma boa aventura.
 
E quando é que decide voltar a pintar?
Foi por volta de 2007. Na altura integrava o Gabinete de Comunicação da Câmara Municipal de Torres Novas e dava aulas na Escola Profissional... e, mais uma vez, decidi mudar. Nessa altura, passei por um enfarte, foi a razão para dizer “agora vou fazer aquilo que sempre quis”.
 
Actualmente vive da pintura que faz?
Vivo. E não é muito difícil... tenho uma vida completamente diferente da que tinha, muito mais simples. Dedico-me à minha jardinagem, a arranjar coisas em casa... procuro desenvolver esta área da pintura.
 
Essa experiência de vida tem reflexo no processo criativo?
Claro que tem. Antigamente começava e tinha de ver a tela toda pintada ao fim do dia, actualmente interrogo cada acção, cada pincelada... há uma visão completamente diferente da luz, da forma…
 
Muitos dos quadros que têm cor são do início da sua carreira, mas as suas obras mais recentes são, na maioria, a preto e branco. Porquê essa mudança?
A base da pintura é o desenho. E eu quis começar a treinar, a aperfeiçoar o meu trabalho. Senti-me na obrigação de me esforçar para reaprender e para isso nada melhor do que os retratos. Aquelas pastas estão cheias de retratos. Gosto de fazê-lo, de desenhar a família, amigos, pessoas que vou conhecendo.
 
Nunca pensou em abrir uma galeria?
Eu e o João Alfaro, do Entroncamento, estamos a colaborar com o ArtSpace de João Carvalho, na Gouxaria, e conheço o funcionamento da galeria. Não tenho grande motivação para criar uma galeria. Mostrar a obra de arte em si, fisicamente, para lá das fotografias e dos filmes, é extremamente importante. As redes sociais são veículos importantes para promover o trabalho e eu não me esquivo a divulgar o meu trabalho, por todas as razões. E as pessoas que realmente têm interesse vão às exposições ainda com mais gosto. A parte má é que cada vez mais se nota que não existe cultura nenhuma por parte das pessoas para ir visitar galerias.
 
Enerva-o a falta de cultura do público?
Não digo que me enerve... tenho pena. Tenho pena que as pessoas não tenham uma visão mais completa e perfeita do que é o trabalho artístico. Mas ainda vou conhecendo pessoas com conhecimento... actualmente os artistas são uma classe absolutamente abandonada.
 
Pelas entidades?
Completamente. Há dois ou três artistas que dominam o mercado e o resto é paisagem. Na pintura isso é marcante, os artistas fazem o favor de ir expor. Há sítios onde o artista faz tudo sozinho e há sempre alguém que acha que tem de ficar com um trabalhinho… antigamente as próprias Câmaras compravam um trabalho do artista. Um indivíduo gasta dinheiro com todo o processo e depois ainda fica lá um trabalho porque tem de ser. Isto acontece porque esta classe está abandonada, senão vejamos: os músicos e outros, têm pagamento adiantado, jantares, almoços... um pintor famoso também, mas aos outros não…
 
Do município de Torres Novas, nunca sentiu apoio?
Sobre isso, posso dizer que quando quis fazer uma exposição no Museu Carlos Reis abriramme as portas.
 
Mas há falta de apoios?
Há dias vi uma reportagem sobre Gil Teixeira Lopes, em que ele dizia “os artistas precisam de ser ajudados! Ajudados!”
 
Tivemos recentemente um governo que extinguiu o Ministério da Cultura…
Isso foi uma tragédia. Mas é um retrato do país. É pena.
 
Esteve quase 30 anos sem pintar e nesse entretanto surgiram os computadores. O processo criativo alterou-se de alguma forma?
Conheço desde sempre este processo. Eu trabalhava em artes gráficas, fui dos primeiros a perceber a importância do computador. As tecnologias são uma grande ajuda e é errado pensar-se o contrário. É de um rigor incrível, o trabalho sai limpo, não há nada melhor do que aquilo.
 
A fotografia ainda tem espaço na sua vida?
Não tanto como eu queria. Mas penso um dia dedicar-me mais. Mas a pintura é a minha paixão.
 
A experiência no cineclube de Torres Novas marcou-o?
Muito mesmo… permitiu-me conhecer os meandros do cinema.
 
Há forma de revitalizar o cineclube?
[silêncio] Não sei se o cineclube pode ter o formato que tinha antes do 25 de abril até porque tinha uma conotação política. Naquela altura, havia actividades que hoje já não são apelativas. As pessoas dantes se queriam ver filmes tinham de ir ao cinema… O cineclube continua a ter espaço, mas tem de ser formatado para a mecânica da imagem actual. Hoje, toda a gente faz filmes com o telemóvel, é uma questão criativa se partirmos por aí, pode fazer-se coisas interessantes.
 
Apesar de ser um autodidacta, tem alguma referência?
Salvador Dalí encantou-me muito, mas hoje já não me encantaria. Interessa-me mais Picasso… e uma imensidão de artistas. Na internet encontra-se tanta coisa absolutamente fantástica... É um mundo cão, alguém fica para trás.
 
Tem que se estudar muito para ser um bom pintor ou nasce do talento inato?
Tem que se estudar para qualquer actividade. Existe trabalho por trás, mas tem que ser inato. Posso ter um indivíduo a trabalhar comigo a aprender e não acontecer nada, porque tem que se sentir alguma coisa. Tem que ser um prazer, não pode ser uma obrigação.
 
Em fevereiro vai expor em Santarém os retratos que tem feito. Ainda se lembra da sua primeira exposição?
Lembro. Foi no Colégio Andrade Corvo, tinha cerca de 10 anos. Fiz uma série de trabalhos relacionados com a era espacial. Naquela altura, queria ser astronauta, ficava fascinado com aquilo. Então fiz uma série de desenhos e depois foram expostos.
 
Porquê o título “Os Rostos da Alma” para a exposição em Santarém?
Fui um bocado impulsionado pelos retratos que vou fazendo e muitas pessoas dizem que capto a alma... Acaba por ser um pouco esse o motivo que me levou a criar esse título. E posso dizer-lhe em primeira mão que pretendo editar um livro com os 500 retratos de torrejanos que já tenho e que vai ter exactamente esse título.
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