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04 JUN 2018
Os Quatro Inventores da Escola de Alcanena
Por Jornal Abarca

Quatro alunos de Alcanena criaram pellets, combustível para caldeiras industriais, menos poluente e mais económico. Tornaram um projecto de escola num caso de estudo para as empresas. Receberam uma bolsa para investigação mas é curta para levar o projecto mais além.

O entusiasmo com que os quatro alunos que compõem o grupo P-Improvers nos recebem na Escola Secundária de Alcanena é notório. Inês, Maria, Rodrigo e Rui Pedro falam de pellets com a naturalidade de quem trata um assunto banal mas a verdade é que, há oito meses, nenhum deles imaginava o que são ou para que servem. Pellets são um combustível sólido de granulado de resíduos prensados que serve como fonte de energia para caldeiras industriais. No fundo, pellets é lenha.

Inês Gomes explica como começou o projecto: “No âmbito da disciplina de geologia o professor fez-nos uma proposta de trabalho que nos fizesse pensar num projecto que englobasse um problema da vila”, levando-os de imediato à principal indústria do concelho. “Como somos a Capital da Pele e há excesso de poluição associada a isso, pegámos no problema do excesso de resíduos nos curtumes para tentar encontrar alguma solução”, justifica Rui Pedro Ferreira.

O apoio das entidades da região foi importante para o projecto não morrer na fase embrionária. E também porque, com o nível de conhecimentos associado a alunos do ensino secundário, certamente precisavam de ajuda técnica especializada. Com o intuito de perceber o potencial dos vários resíduos oriundos da Indústria, recorreram ao Centro Tecnológico das Indústrias do Couro (CTIC), onde, com a ajuda do engenheiro Nuno Silva, chegaram “à conclusão de que os resíduos curtidos sem crómio têm um elevado poder energético, ainda por explorar”. 

Estava encontrada a ideia do projecto mas faltava a parte mais complicada, que passava por dar um rumo a essa ideia. No fundo, como passar da teoria à prática. Maria Santos explica que a maioria dos resíduos curtidos sem crómio “vão para aterro e outros são utilizados como fertilizantes”. Pegaram nesses resíduos e juntaram-lhe outros ingredientes como cascas de frutos secos e resíduos da indústria de mobiliário para criar um produto o mais energético e menos poluente possível: “o objectivo é aumentar o potencial energético, ou seja, gerar a mesma energia mas com menos volume”, referem. 

A ideia inicial passou por produzir um retardante de chamas de cortiça, centrados na problemática dos incêndios que afectaram Portugal em 2017, e chegaram a reunir com os Bombeiros Municipais de Alcanena, acabando por seguir outra via. Tomada a decisão de produzirem pellets com base nesses três elementos visitaram várias empresas para entenderem o processo de produção e certificação do produto. Visitaram a empresa “Martos – Paletes e Pellets” em Leiria, onde conheceram “a linha de produção e os testes efectuados aos pellets para serem comercializados” e contaram também com o apoio das empresas Semitricodisseia, também de Leiria, (fornecimento do serrim de madeira), Pabi, da Guarda (fornecimento das cascas de frutos secos), e Couro Azul, de Alcanena (fornecimento dos resíduos curtidos sem crómio). 

Inês alerta que “as empresas não têm proveito” dos resíduos que resultam da produção e “acabam por vender muito barato para o lixo”. Para este projecto acabaram por beneficiar do facto de terem matériaprima gratuita mas não têm dúvidas de que esta é uma solução mais válida do que aquelas actualmente utilizadas. “Está estabelecido que é apenas com miolo de madeira que se fazem pellets e os industriais não se preocupam em avançar mais”, refere.
 
Do Sonho à Obra
Feita a parte da pesquisa, faltava a parte prática. Ou seja, o momento mais ansiado pelo grupo era o de criar o seu próprio pellet. Mas como os custos são elevados, enviaram “muitos e-mails para várias universidades” de forma a poderem utilizar as suas instalações nos testes, sem nunca obterem uma resposta concreta, lamenta Rui Pedro. Não se resignaram e concorreram a uma bolsa da Fundação Ilídio Pinho. A ideia foi bastante elogiada e receberam uma bolsa de quinhentos euros que lhes permitiu fazer o primeiro ensaio no Centro de Biomassa de Miranda do Corvo. Esse teste tem o custo de trezentos e oitenta euros, o que reduz a margem de erro para os jovens inovadores. Rui Pedro Ferreira resume a ideia: “É como fazer um bolo sem saber a receita certa... mas só temos uma oportunidade”. 
 
Esta tentativa foi, de facto, o único meio que tiveram para explorar as ideias desenvolvidas. Realizaram o ensaio com a ajuda de uma engenheira especializada e até se tornar real, o pellet passa por vários procedimentos de produção. Inicialmente é feita uma identificação dos resíduos, passando depois à moagem, em moinho, da casca de amêndoa e do serrim, e da peneiração dos resíduos curtidos sem crómio. De seguida, efectuam minuciosamente a diminuição da granulometria de outros resíduos curtidos sem crómio, determinam a quantidade a utilizar de cada resíduo e fazem a mistura dos ingredientes de forma a criar uma mescla homogénea. Por último, colocam a mistura numa prensa que vai gerar um produto final sólido. 
 
O ideal seria tentarem várias vezes até obter o produto perfeito mas, mesmo assim, não ficaram desiludidos com o resultado obtido. Rodrigo Vasconcelos admite, por isso, que embora possa ser melhorado, o pellet composto por resíduos curtidos sem crómio (25%) dos quais 21% são aplicados como fertilizante e 4% destinados a aterro, cascas de frutos secos (35%) e serrim de madeira (40%), conseguiu resultados satisfatórios obtendo um poder calorífico de 20,75 mj/kg enquanto a média das indústrias se situa nos 17/18 mj/kg. Com isto, e perante os cálculos que efectuaram, acreditam ser possível baixar o preço por quilo de pellet dos actuais 0,26€ para 0,18€ com o produto que criaram, uma redução substancial de aproximadamente 30% do valor de custo. Resumindo: os P-Improvers conseguiram, com menos de um ano lectivo de estudo, obter um produto mais eficiente e mais barato do que aquele utilizado pelas indústrias locais. 
 
Seguram cada pellet, peças com cerca de dois centímetros cada, como se de um tesouro se tratasse, até porque têm poucas amostras. Rui Pedro diz, entre risos, que “fazemos dois ou três pellets por hora porque temos pouca experiência e foi tudo feito de forma manual” mas logo Maria sublinha que “numa fábrica, com a maquinaria adequada, pode produzir-se vinte quilos por hora”. 
 
A ideia do projecto P-Innovation é a de “criar uma economia circular dentro da própria empresa”, sugere Inês, “até porque muitas empresas usam actualmente gás e nafta que são mais poluentes e caros”. Ainda não apresentaram a ideia às empresas mas pensam fazê-lo para demonstrar a execução dessa economia circular: “podiam utilizar estes pellets nas caldeiras aproveitando os desperdícios dentro da própria empresa”. Por agora, com os cento e vinte euros que sobram da bolsa da Fundação Ilídio Pinho, vão patentear a ideia.
 
O presente e o futuro
As reacções dos colegas e amigos “têm sido muito positivas, acham a ideia muito interessante” lembrando que até os jurados dos concursos a que concorreram “reconhecem que estamos muito empenhados”, dizem envaidecidos. 
 
Todos admitem que gostariam de ir mais longe mas que há várias condicionantes para tal. A começar pela parte financeira pois os apoios para mais testes são escassos e, depois, porque existe uma nova vida a começar para todos eles e o tempo escasseia. “Temos os exames nacionais daqui a pouco tempo e depois quando entrarmos na universidade não vai ser fácil”, lamentam. “Até para irmos ao centro de biomassa e aos concursos são os nossos pais que têm de perder o dia de trabalho para irem connosco”, caracterizando assim as dificuldades em ir mais além. 
 
José Fradique, o professor que lhes lançou a ideia, admite que pensou “que criassem um projecto ambicioso mas nunca imaginei que fossem tão longe” ressalvando que ao longo deste trajecto “adquiriram muitas competências”, não apenas ao nível da disciplina que lecciona mas também na parte empresarial. Isto porque concorreram ao concurso “Arrisca C”, da Universidade de Coimbra e passaram aos sete finalistas. “Um dos jurados”, de um total de trinta e dois elementos, “disse que ficou deslumbrado com a ideia”, refere o professor, nitidamente orgulhoso. O concurso “Arrisca C” tem uma vertente mais empresarial, longe da vertente técnica do estudo. “Tiveram liberdade para desenvolver o trabalho e adquiriram capacidades de comunicação, pesquisa e estimularam a própria relação entre eles”.
 
O professor sublinha que os resultados alcançados em “apenas sete meses, quando tiveram de começar do zero e percorrer todas as fases” é a prova de que “como alunos do 12º ano têm já uma grande bagagem de conhecimentos e de mobilização em prol do projecto”. Dando o mérito do trabalho aos seus alunos, José Fradique frisa que “na parte dos procedimentos o mérito é todo deles, o professor tem apenas um papel orientador e motivacional”. 
 
Em breve irão à segunda fase do prémio da Fundação Ilídio Pinho e isso permitirá, eventualmente, realizar novos testes. No entanto, as prioridades de cada um estão agora centradas sobretudo no acesso ao ensino superior. Maria pretende ingressar em medicina, Inês gostaria de seguir enfermagem enquanto os rapazes estão mais inclinados para as engenharias. Seja qual for o objectivo, aproximam-se os exames nacionais que são um momento que exige bastante concentração e foco por parte dos candidatos. 
 
Maria, perante todas as condicionantes mas projectando a vontade de não deixar o projecto morrer com o fim do ensino secundário, sugere que “a ideia de desenvolver ainda mais o projecto agrada-nos, talvez um dia... no futuro”. 
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