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01 OCT 2019
Uma Missão de Todos
Por Jornal Abarca
O rio Almonda tem sofrido bastante com a poluição industrial, mas Patrícia Alves lembra que há lixo no rio resultante da acção individual. O projecto “Tudo o que vem à rede é plástico” pretende limpar o rio e despertar consciências. Um cubo, instalado na Praça 5 de Outubro em Torres Novas, exibirá os detritos recolhidos.
 
O rio Almonda tem sofrido bastante com a poluição industrial, mas Patrícia Alves lembra que há lixo no rio resultante da acção individual. O projecto “Tudo o que vem à rede plástico” pretende limpar o rio e despertar consciências. Um cubo, instalado na Praça 05 de Outubro em Torres Novas, exibirá os detritos recolhidos.

Patrícia Alves apresenta um discurso bastante consciente, concreto e esclarecedor. Quer limpar o rio Almonda, afluente do Tejo, mas a motivação maior pretende alertar as pessoas e consciencializar a comunidade. Mais do que contar toneladas de lixo e fazer disso estandarte, a jovem torrejana quer que as pessoas se envolvam e se tornem conscientes.

Com vinte anos feitos em Julho, Patrícia frequenta o terceiro ano de Estudos Africanos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e pretende no futuro “trabalhar de forma direccionada ao ambiente e ecologia”. O próximo passo será “tirar mestrado de Desenvolvimento Sustentável”. A envolvência é, portanto, consequência do que é e motivação para o que quer fazer.

Foi assim que concorreu a uma residência social, criada por duas organizações não-governamentais para o desenvolvimento: a PAR Respostas Sociais e o Instituto Mateus Vale Flor. De entre cerca de uma centena de candidatos, foram seleccionados 17, um por cada Objectivo de Desenvolvimento Sustentável, incluídos na Agenda 2030 das Nações Unidas. Patrícia foi uma das escolhidas, depois de vários testes, e em sorteio calhou-lhe trabalhar o objectivo número 14: “Conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável”. Patrícia, a mais jovem do grupo de candidatos seleccionados, confessa que “antes do sorteio o meu objectivo era apenas que me calhasse algo relacionado com o ambiente” e explica porquê: “Ia ter o mesmo envolvimento mas não ia ser tão benéfico para mim porque não seria tanto dentro da minha área de estudos”. Assume que “a questão marítimo surgiu como um desafio bastante interessante porque era a que tinha menos conhecimento dentro da área ambiental” e isso exigiu mais de si.

A residência social durou quatro dias e “tinha a possibilidade de trabalhar a nível nacional ou regional” acabando por escolher um projecto que envolve o rio Almonda que “está num estado de conservação mau”. Limpar o rio é um desafio aliciante para Patrícia que espera impactar as pessoas com a acção: além da limpeza, o lixo será exibido na principal praça da cidade.
 

“Tudo o que vem à rede é plástico”
Depois de definir o rumo do projecto, foi altura de pôr mãos à obra. Assim nasceu o projecto “Tudo o que vem à rede é plástico”, um “trocadilho que utiliza uma expressão popular”, diz Patrícia. O nome “chega a várias faixas etárias, é de fácil identificação e vai directo ao ponto”.

A limpeza ao rio consiste, portanto, em quatro idas ao Almonda, em locais ainda a definir, no último domingo de cada mês entre Outubro e Janeiro. A primeira acção é no dia 27 de Outubro. Estas acções serão feitas por voluntários, por isso Patrícia apela à participação embora saliente que “tenho tido pessoas de todas as idades a enviarem-me mensagens, pais de colegas que lhes transmitem que querem participar, de várias aldeias do concelho” dando como exemplo “um grupo de jovens de Assentis que já me contactou para saber como ajudar”.

Patrícia mostra-se feliz pela capacidade de envolvência que o projecto está a demonstrar e acredita que isso é resultado de uma maior consciência da população para as questões ambientais: “É um problema e as pessoas começam a perceber isso”.

Torres Novas tem sofrido com a poluição ambiental, sobretudo na ribeira da Boa-Água, mas Patrícia lembra que “há empresas a poluir e isso faz com que as pessoas pensem demasiado num panorama macro em que esperam ver os governos resolver que são de facto quem tem o poder para o fazer”, mas a poluição ambiental, como a poluição marítima, é uma questão micro e macro, logo é responsabilidade dos governos, mas também das pessoas em singular nos seus hábitos quotidianos, que também precisam de melhorar”. A jovem salienta que “as zonas que vamos limpar tem lixo das pessoas, e não das fábricas” e que por isso é responsabilidade de todos “ajudar a preservar” o meio em que vivemos. “Isto não é uma crítica, mas é uma forma de mostrar que todos podemos ser úteis”, esclarece.

O trabalho é escrutinado pelos responsáveis da residência social com que Patrícia criou o projecto: “Criámos as bases lá e depois desenvolvemos o projecto. Ao longo dos meses temos de mostrar o trabalho”, explica orgulhosa do trajecto feito até aqui.


O Cubo Despertador de Consciências
Mudanças comportamentais de uma sociedade levam, por norma, pelo menos uma geração a surtir efeito. A questão ambiental é a mais premente questão social dos nossos dias e Patrícia tem noção disso. O seu projecto passa, por isso, “mais pela sensibilização do que propriamente uma operação de limpeza ao rio”, explica. Porque, como dizia o poeta, “o caminho faz-se caminhando”.

Contudo, no entender da jovem “existe conhecimento e preocupação”, daí a adesão de voluntários de forma genuína. No entanto “as pessoas ainda não perceberam o quão grave é o problema” acreditando que “o abismo está muito mais próximo do que as pessoas acham”. Para Patrícia “o problema é hoje, estamos a ficar sem tempo”.

É nessa lógica de sensibilização que o projecto engloba uma faceta artística que passa pela colocação de um cubo (idealmente no dia antes da primeira sessão de limpeza) com dois metros de largura, por outros tantos de altura e profundidade, na Praça 05 de Outubro, a principal montra da cidade, onde “o lixo recolhido será colocado”. Com esta acção Patrícia pretende que “as pessoas estejam conscientes” e acredita que “um cubo cheio de lixo na maior praça da cidade tem mais impacto do que ver lixo às vezes no rio”.

O cubo receberá apenas lixo que não comprometa a saúde pública, o restante será recolhido por uma empresa de tratamento de resíduos. Por “uma questão de marketing” o cubo será cheio faseadamente. Encher o cubo logo na primeira sessão e deixá-lo assim durante o resto do projecto poderia criar o efeito contrário nas pessoas.

A ideia é sensibilizar “e à medida que o cubo for enchendo as pessoas vão perguntar, vão ler a descrição do projecto, pode haver uma maior participação”, diz Patrícia. A jovem acredita que esta ideia “pode ter impacto” e ajudar a mudar comportamentos: “a ideia é que não sejam precisas outras acções deste género”, conclui.

Apesar de o projecto estar a ser financiado pela própria, inclusive a estrutura do cubo que será instalado, no âmbito do projecto da residência social, Patrícia tem contado com outros apoios. “A Câmara Municipal de Torres Novas tem ajudado, na reunião em que estive presente todos se mostraram bastante interessados”, conta. Ainda assim destaca a ajuda de “Pedro Triguinho, que está a ser uma grande ajuda no projecto, foi bastante importante no processo todo”. Recorde-se que Pedro Triguinho é um dos rostos do movimento BASTA que tem lutado contra a despoluição da ribeira da Boa-Água no rio Almonda.

Para o futuro Patrícia sabe apenas que vai querer “continuar a trabalhar de forma direccionada ao ambiente e à ecologia” garantindo que “se houver oportunidades para fazer algo em Torres Novas terei todo o gosto em trabalhar nos projectos que forem propostos”. Resume a sua essência numa frase: “Sempre que for para o bem do ambiente estou disponível para ajudar”.


A Agenda 2030
Este documento “define as prioridades e aspirações do desenvolvimento sustentável global para 2030 e procuram mobilizar esforços globais à volta de um conjunto de objetivos e metas comuns”. Essas metas centram-se nos cinco P, nomeadamente: Pessoas, Planeta, Paz, Prosperidade e Parcerias. A Agenda 2030 foi criada em 2015, e representantes de organizações de todo o mundo e os principais chefes de Estado e de Governo assinaram o documento, no contexto da Organização das Nações Unidas.

São 17 os objectivos da Agenda 2030, conhecidos como Objectivos de Desenvolvimento Sustentável. Patrícia Alves desenvolve o seu projecto em torno do objectivo número 14, que trata a vida marinha. Este tópico pretende proteger a vida marinha em todas variáveis possíveis: reduzir a poluição, conservar ecossistemas ou regular a pesca.

Assim, os 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável que pretendem “criar um novo modelo global para acabar com a pobreza, promover a prosperidade e o bem-estar de todos, proteger o meio ambiente e combater as alterações climáticas” são: Erradicar a pobreza, Erradicar a fome, Saúde de qualidade, Educação de Qualidade, Igualdade de Género, Água potável e saneamento, Energias renováveis e acessíveis, Trabalho digno e crescimento económico, Indústria, inovação e infraestruturas, Reduzir as desigualdades, Cidades e comunidades sustentáveis, Produção e consumo sustentáveis, Acção climática, Proteger a vida marinha, Proteger a vida terrestre, Paz, justiça e instituições eficazes, e Parcerias para a implementação dos objectivos.

 

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