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04 FEV 2020
Um Amor dos Tempos da I Guerra Mundial
Por Jornal Abarca

Rodrigo e Guilhermina tiveram há um pouco mais de cem anos um romance singular, como todas as histórias em que há dois corações e um fio inexplicável de paixão a uni-los. Mas este foi um romance em tempo de guerra. Ele, Rodrigo Esteves Gusmão, nascido em Alcáçovas, Viana do Alentejo, 25 anos e órfão muito cedo, não estava nas trincheiras nem nas colinas que fumegavam, na frente em que a carne se despe nas batalhas. Mas sentia-as na retaguarda e nos outros, e era chamado para ajudar nos tratamentos. 

Era alferes farmacêutico, e tinha de estar sempre por perto para acudir ao sofrimento, às feridas e até ao desespero dos homens da sua companhia. Tinha o seu código de honra, e honrava-o. Guilhermina Ramalho, a sua Mina, a sua “minha amiguinha”, era assim que ele gostava de a tratar com ternura e respeito, ficara em Portugal, e durante mais de um ano, o tempo de destacamento do jovem militar em França, todos os dias cada um recebia um postal ilustrado e uma mensagem  -   mais telegráficas e repentinas as do militar, mais longas e refletidas as de Mina, mas todas consumidas nas saudades que ambos procuravam gerir e que era mitigada por cada postal, que era recebido como um bálsamo. Rodrigo queixava-se e “amuava” com a sua Mina, um ano mais nova e professora no Alentejo, por cada dia que se passava sem que recebesse a mensagem vinda de Évora, de Alcáçovas ou de Vianna. E quando isso sucedia ficava logo óbvio no trato, já não tinha energia, era apenas “Guilhermina”, sem adjetivos e muito menos diminutivos. Depois compreendia, e perdoava logo que recebia depois um poema de amor de Mina. “Minha amiguinha, não posso esquecerte, cada vez mais sinto quando custa esta ausência tão longa. Muitas saudades, Rodrigo”. Mina respondia-lhe e pedia que viesse a Portugal para se verem, mesmo que por curto espaço de tempo. 

As imagens que os postais transportavam não podiam ser mais contrastantes. Os de Rodrigo para “Mademoiselle Guilhermina Ramalho” traziam cenas de guerra, de destruição, ruínas de igrejas incendiadas, pontes caídas, soldados a caminhar de arma em riste nas trincheiras, na melhor das opções uma cena de confraternização de soldados entre duas refregas nas trincheiras, temperadas com um “cada vez gosto mais de ti”. Mina transmitia mais bucolismo nas suas mensagens, amendoeiras em flor, era o contraponto perfeito no vai e vem entre dois mundos diferentes, que a química do amor teimava em ligar. Dirigia-se a Rodrigo como “meu prezado amigo” ou “meu bom amiguinho” e no endereço os seus postais ilustrados dirigiam-se ao “Distinto Alferes Farmacêutico”. Por vezes a mensagem de Rodrigo era lacónica e apressada, mas tinha lá tudo: “Muitas saudades”, e a data, 21/1/918. Ou então, carta postal de 3/1/918, “está tanto frio! Tenho as mãos entorpecidas”, “está um frio medonho, mas não tenho outro remédio senão ir até ao hospital” (5/3/918) e “o teu amiguinho sente-se sempre muito feliz quando tenho notícias tuas”, confessado na véspera. Em maio de 1918 Rodrigo regressou da sua missão na guerra para cumprir a da paixão e compromisso com a sua Mina.
 
Evocações de uma infância no Alentejo
“Foi com ternura que encontrei estas cartas religiosamente guardadas pelos meus avós, e que só descobri depois de falecerem”, conta a neta, Zulaica Gusmão, que viveu toda a sua infância com eles e foi mais tarde professora de Educação Musical no Entroncamento, que disponibilizou esses postais para documentação digital do exército português, e que com eles pretende homenagear a memória e o afeto que tinha por eles.
 
“Depois do avô vir da guerra, os dois casaram-se a 17 de setembro de 1919, ele começou então a trabalhar na farmácia militar de Lisboa, viviam em Torres Vedras, e a minha avó deixou de dar aulas, ficava na farmácia, onde recebia as receitas dos manipulados para o marido preparar depois de chegar”, conta Zulaica Gusmão, notando que a avó vivia “preocupada, e até aflita, com esta situação até ele chegar a casa, pois em Lisboa estavam sempre a acontecer revoltas”. Foram depois viver para Évora, ambos tinham raízes alentejanas, de Ervidel e Vidigueira. Rodrigo foi para o Hospital Distrital de Évora, tendo criado depois a Farmácia Saraiva, na Praça Geraldo, hoje é a Farmácia Gusmão. 
 
“Tiveram três filhos, três rapazes, e uma vida normal. A avó dominava, ela era baixa, tranquila e dominante, lembro-me que andava sempre de sapatos de salto alto, mesmo em casa”, conta Zulaica Gusmão, recordando-se dos passeios que faziam no “enorme Pontiac e depois na ‘arrastadeira’ [um Citroën DS, o célebre, lendário e surpreendente ‘Boca de Sapo’]” por Espanha e de irem até à Serra de Ossa onde o casal comprara uma casa para tratarem “de uma sombra nos pulmões” (princípio de uma tuberculose) de um dos seus filhos, o Flaviano. O pai de Zulaica Gusmão era já engenheiro agrónomo. 
 
A partir da década de 1920 a família prosperou tranquilidamente e com trabalho, a avó Mina recomeçou a dar aulas, viviam numa casa de 30 divisões (atualmente é um lar com várias valências sociais) junto do Jardim de Diana, em Évora, tinham “umas empregadas no serviço de fora, e outras no serviço de casa”, recorda a neta, lembrando o modus faciendi entre a família e os seus funcionários: “Tratavam-se as empregadas com respeito, de modo afável, a comida para elas era tirada à parte logo no princípio, e não no fim, como sobejos”. 
 
Nos dias passados na Serra de Ossa, para muitos serranos ele era o “senhor manjor” e ela era a “senhora manjora”, recorda a neta sorrindo do caso. “Ele também ensinava Físico-Química, ela, Português, no Natal nunca faltaram à Missa do Galo”, conta a neta, e, como se fossem aguarelas que nunca apagará da memória: “Falavam em voz baixa. Nunca discutiram”.
 
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