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13 ABR 2020
Conto - Um amor assim nunca devia morrer...
Por Jornal Abarca

Parecia um vulto de outro planeta, um ser biónico e de barba longa que por ali deambulava sem sentido nem propósito. Não fosse o enorme chapéu e o longo capote castanho que cobria o seu enorme corpo, seria mesmo uma personagem de ficção.

Alberto tornou-se para os vários moradores próximos daquela estrada que corria quase paralela ao Tejo numa estranha representação hodierna do velho e incongruente mito grego de Sísifo. Há muito que calcorreava, como um maltês, as bermas da estrada num sentido e no outro. Fazia-o diariamente, como um pêndulo mecânico para leste e depois para poente, talvez até mais de uma vez em cada dia. E de noite também, em certas ocasiões. Por vezes, mais parecia um vulto de outro planeta, um ser biónico e de barba longa que por ali deambulava sem sentido nem propósito. Não fosse o enorme chapéu e o longo capote castanho que cobria o seu enorme corpo até aos pés, seria mesmo uma personagem de ficção. Era sobretudo no crepúsculo ou à noite, em que os seus movimentos lentos, e já vagos e indeterminados, davam ainda mais mistério ao seu caminhar irreal, mas verdadeiro.
 
Era um gigante que não parava, nunca parava, nunca ninguém o vira alguma vez quedo para descansar um pouco ou por outro motivo qualquer. Caminhava com método e numa leve oscilação no tronco, tinha um coto sem jeito no lugar de um braço e um longo bordão negro na mão do outro lado. Caminhava sempre, como se um degredo régio a isso o tivesse condenado. Também ninguém ouvira dele uma palavra, um pedido, um simples sopro, apesar dos cães ladrarem desalmadamente, mesmo quando estavam afastados, sempre que ele, de passo quase automático e maquinal, passava como um peregrino sem santo nem santuário e de destino incerto. Houve ainda quem garantisse ter-se cruzado alguma vez com este ser seminómadasemieremita, personagem provável de um mito ou de uma lenda medieval, mas na verdade era um figurante neorrealista já da segunda metade do século passado. A impressão que colheram essas pessoas, no fugaz momento de proximidade, era a de alguém altivo e quase etéreo, como se levitasse, caminhava silencioso e como se a tudo fosse indiferente, e depois esvanecia-se rapidamente na noite negra ou entre as sombras das árvores e dos bosquetes. Diziam que dormia sobre um sobreiro, onde alojara um sobrado e uma cama de palha que a ramagem protegia e disfarçava. Comia frugalmente umas bagas e algum fruto que encontrava na sua jornada, porventura algum naco de pão e conduto, não se sabendo como os conseguiria.
 
Quem o viu passar durante tanto tempo contava muitas histórias sobre as razões deste degredo sem cansaço nem descanso. Mesmo em dias de grandes tormentas, a chuva torrencial e tocada a vento, granizos e mil raios no céu, o enigmático personagem surgia de repente, com a água a escorrer-lhe pelo chapéu e pelo capote que cobria um perfil muito alto e magro e que ganhava ainda maior imponência visto em recorte contra um fundo negro e riscado por relâmpagos furiosos que irrompiam atrás de si. Contavam-se muitas histórias de Alberto, mas havia uma que, por ser a mais intensa e melhor se conformava àquele abismo psicológico, se sobrepunha às demais. O vai e vem daquele alienígena e o seu olhar vago e remoto poderiam sugerir o de alguém siderado ou que ficara “frito” por alguma obtusa substância. Mas não era o caso, porque a forma como compassava o seu caminho denunciava, não obstante, uma certa determinação. Alberto percorria como um espartano de sandálias aqueles 30 ou 40 quilómetros entre os dois extremos que parecia vigiar, ninguém sabia ao certo onde eles ficavam, na esperança de aí reencontrar a mulher que tanto amara, e que, de certa maneira, ainda amava. Fora nesse trajeto, agora tantas vezes batido, que um dia ela desaparecera do seu mundo. Para alguns, a amante morrera num acidente de automóvel em que Alberto ficara com um braço mutilado e em estado de coma alguns dias, nunca tendo recuperado a consciência plena nem sequer parcial desse segmento de tempo da sua vida. E era na tentativa de recuperar a amante, ou seja, dessa parte de si e da sua própria memória, que lhe faltava, que calcorreava sem cessar aqueles quilómetros, numa esperança que não esmorecia de as vir a encontrar. Ele nunca aceitou que a Helena tivesse sido arrancada à vida antes da sua vez. Para si, não morrera, e isso era-lhe suficiente.
 
O poeta estoico e epicurista Quinto Horácio, da Roma Antiga, costumava afirmar que “a adversidade desperta em nós capacidades que, em circunstâncias favoráveis, ficariam adormecidas”. Mas também desperta estados de espírito que o realismo julga como absurdos, irracionais e anacrónicos, mas que num cérebro perturbado, já o não são. Este eremita e nómada não se submetia à realidade, simplesmente não a aceitava. Quando via ao longe os movimentos de alguma esbelta e jovem mulher, de imediato estugava o passo, como se fosse dirigido por um instinto automático, e fixava-se bem na anatomia e na ondulação do corpo feminino para o reconhecer. A esperança rapidamente dava lugar à agrura e à desilusão, mas nem um milhão de desilusões chegariam para quebrar o seu desejo de a encontrar e de a abraçar e beijar de novo.
 
Outras pessoas diziam que ela o abandonara e trocara por outro, e fora nessa condição que ele, incapaz de suportar a veracidade, e como o povo, sempre cruel, garantia, desvairara com a sua presumida desonra. E foi assim que, nos primeiros tempos, após o afastamento de Helena, era frequente vê-lo desnudado e sem pudor desvendar os genitais pelo caminho.
 
Há muito tempo que deixei de ver o caminhante de olhar distante e metafísico, e de passar por essa estrada, que era a dos seus passos, nem sei mesmo se o Alberto ainda existe, e, estando vivo e com energia, se ainda a percorre. Ou se terá mesmo um dia reencontrado a sua doce e bela Helena. Destes cenários, este é talvez aquele de que tenho menos dúvidas, quanto mais não seja porque um amor assim não devia morrer...
 
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