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18 JUN 2020
OPINIÃO - Solstício e Relógios de Sol (por Máximo Ferreira)
Por Jornal Abarca
Relógio de Sol declinante (à esquerda) e Relógio de Sol equatorial (à direita)
Relógio de Sol declinante (à esquerda) e Relógio de Sol equatorial (à direita)

O solstício de junho do ano passado ocorreu às dezasseis horas e cinquenta e quatro minutos do dia 21 do referido mês e, este ano, teríamos o solstício cerca de cinco horas e cinquenta minutos depois (às 22:44 do mesmo dia) não fosse o facto de o corrente ano de 2020 ser bissexto e, em consequência disso, ter sido introduzido mais um dia no mês de fevereiro. Esse “gasto” de um dia, antes de junho, fez recuar o momento que marca o início do verão no hemisfério norte, pelo que, este ano, o solstício se verificará às 22:44 do dia 20.

Na verdade, não existe qualquer sinal perceptível dos momentos de solstícios e equinócios mas eles são determinados rigorosamente pelos astrónomos que se dedicam aos cálculos relacionados com a velocidade da Terra em torno do Sol e com o tempo necessário para completar uma volta. Naturalmente, a experiência resultante do nosso contacto com a natureza faz-nos saber que “o primeiro dia de verão”- considerando “dia” como o tempo de permanência do Sol acima do horizonte – será o maior do ano e que, ao longo da citada “estação”, tal “tempo” vai diminuindo. Simultaneamente, será cada vez menor a altura máxima do Sol (que ocorre ao meio dia solar) e os pontos do seu nascimento e ocaso vão “deslizando” para sul, aproximando-se dos pontos cardeais Este e Oeste, respetivamente.

Em 1990, começou a celebrar-se, em Portugal – na data do solstício de junho - o “Dia do Relógio de Sol”, como que a evocação dos tempos em que medir o tempo era tarefa muito menos fácil do que actualmente (embora, então, não fosse tão importante o rigor com que hoje temos de viver) e do saber e arte de antepassados nossos para construir instrumentos que davam a “hora”, sempre muito relacionada com a posição do Sol acima do horizonte de cada lugar solar. É tido como certo que há mais de três mil anos eram usados métodos para “medir o tempo”, no Egito e posteriormente na China, surgindo depois no norte de África. No período das Cruzadas, tais instrumentos e métodos são trazidos para a Europa e, aos profundos conhecimentos árabes sobre o assunto, muitos teóricos e artistas europeus juntam elementos ao que designamos genericamente por “relógios de sol” e fazem deles não só recursos mais rigorosos e adaptados a regiões situadas mais a norte, como, também, peças magníficas com que decoraram jardins, paredes de palácios e igrejas. Os nomes dados a cada “relógio” resultavam da posição em que seria colocado (horizontal, vertical, …) e da orientação dada ao mostrador e ao “ponteiro” (equatorial, declinante, …) e os materiais de que eram construídos iam da pedra ao cobre, passando por ferro, latão, madeiras especiais ou mesmo gravações no chão e em paredes.

Com o aparecimento de relógios mecânicos e a preocupação de adequar a “hora” de cada lugar às atividades predominantes e ao facto de o tempo medido pelo Sol (hora solar) ser irregular ao longo do ano, levou à progressiva perda de utilidade dos “relógios de sol” como instrumentos de medição do tempo. No entanto, não deixarão de constituir belos elementos decorativos e – talvez mais importante – elos de ligação com a história de tempos e lugares em que foram produzidos e estudados os princípios em que se basearam. De facto, muitos deles envolvem o conhecimento rigoroso de elementos relativos à rotação da Terra, à geografia e às convenções estabelecidas sobre fusos horários e a mudança de hora. Com o solstício de junho a ocorrer, este ano, no dia 20 de junho (às 22:44) e, consequentemente, a ser essa a data do “Dia do Relógio de Sol”, o Centro Ciência Viva de Constância (CCVC) integrou nas suas atividades para o dia 21 (domingo), às 15:00, a inauguração de um relógio de sol equatorial (do mesmo tipo que pode ser executado, em cartão, pelos participantes em atividades do CCVC), o qual ficará, permanentemente, num espaço exterior muitas vezes utilizado como miradouro, de onde se pode observar não só toda a vila de Constância e os aspetos mais relevantes das redondezas, incluindo estruturas e aglomerados populacionais de Abrantes e Vila Nova da Barquinha.

 

Máximo Ferreira é astrónomo e Coordenador Científico no Centro de Ciência Viva de Constância.

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