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03 SET 2020
REPORTAGEM: "O Mundo em Extinção dos Picaretos"
Por Jornal Abarca

O “Ti Fontes”, falecido há 3 anos, dificilmente imaginaria que o seu picareto estaria um dia muito perto de se tornar uma das 7 Maravilhas da Cultura Popular de Portugal. Mas se tal vislumbrasse, o velho e carismático calafate da Ortiga não deixaria de abrir o seu irónico e espirituoso sorriso a que os expressivos olhos azuis davam mais cor.

Manuel Pires Fontes, que na Ortiga, concelho de Mação, será sempre o “Ti Fontes”, faleceu há três anos, mas o seu espírito está ainda presente na alma de cada picareto que se move no Tejo e noutros rios portugueses, no total foram cerca de 300 embarcações originais, que tinham no troço do Tejo entre a barragem de Belver e as Mouriscas o seu habitat natural e para que foi talhado. Foram muitas dezenas de anos a construir picaretos únicos e que se distinguiam dos feitos por outros calafates da freguesia de Mação porque saíam das mãos do “Ti Fontes”. Sandálias brancas de plástico, calças azuis já muito coçadas, um velho cinturão da tropa a segurá-las, e uma camisa muito gasta, além de mestre, era um homem simples e perfecionista. Já o pai fora calafate, mas foi com o filho que a arte da construção do picareto foi ao limite. Tanto que se conta que os outros construtores de barcos era ao “Ti Fontes” que encomendavam o seu. Na freguesia quase todos os homens e mulheres, a lançar a rede ou a remar, eram dantes pescadores - hoje são bastante menos. (...)

“Lembro-me muito bem dele. Ia aos pinhais e escolhia criteriosamente os pinheiros que deviam servir para fazer as tábuas para pôr no fundo do barco. Os pinheiros deviam ser os mais grossos e com menos nós, donde partem os ramos, era com eles que fazia as melhores tábuas para o fundo dos seus picaretos. Ele comprava o pinheiro ao dono, outras vezes eram os proprietários que, olhando para os seus pinhais, iam ter com ele para lhe vender os pinheiros mais apropriados”, conta Arlindo Consolado Marques. (...)

Numa casa muito humilde à beira do Tejo, e com a Barragem de Belver à vista, vive Manuela Rosa Martins, 76 anos, a última pescadora da Ortiga, função que desempenhou até aos 72. “Pesquei desde os 22 anos até 72 anos, foram 50 anos a pescar no rio, acabei quando o meu marido faleceu há quatro anos”, diz a antiga pescadora, sem conseguir conter uma lágrima pela evocação do marido, Joaquim Vidal. Com ele viveu 50 anos e com ele pescou outros tantos, eram uma família (com os seus três filhos) e ao mesmo tempo, com o seu picareto, uma sociedade económica que se bastava. “Durante todo o tempo em que estivemos casados fomos companheiros também no barco. Todas as noites saíamos no picareto e deixávamos os filhos nas barracas. A hora de sair à noite dependia do rio, o Tejo é que mandava”, diz Manuela Martins, notando que era frequente os dois saírem às três horas da manhã e chegarem com o peixe às seis, quando surgiam os primeiros alvores. Era nesse período que “o peixe emalhava melhor”. (...)

Poderá ler o resto da reportagem na edição em papel do Jornal Abarca, disponível nos postos de venda habituais.

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