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14 ABR 2021
OPINIÃO | "Do Dia do Pai", por Paula T. Gonçalves
Por Jornal Abarca

Esta crónica, escrita neste mês de março escorrido é um exercício mental sobre os papéis esperados e representados da figura do PAI nas nossas sociedades.

Crianças de todo o mundo fazem uma homenagem ao pai, ou aquele que os criou como sendo filhos. Mas eu pergunto isto: Como ficam representadas as figuras vazias dos filhos criados sem pai? Milhões de pessoas nunca conheceram o pai, por abandono, orfandade ou outras por circunstâncias da vida. Porque motivo é preciso representar essas figuras de forma positiva ou simplesmente ignorar aquele vazio? Uma ex-colega minha de trabalho um dia disse : “Eu não tenho nenhum tipo de relação com o meu pai” -  isso escandalizou outro dos meus colegas de trabalho que lhe disse: “ó menina não digas isso, pai é sempre pai.” A rapariga teve depois de explicar que de facto não tinha nenhum tipo de relação porque nunca teve nenhuma figura de pai, ela era filha de um casal de lésbicas que optaram por fazer a inseminação artificial. O leitor que está a ler esta crónica pode por ventura pensar que estes são casos exepcionais mas no mundo diverso que vivemos devemos entender que as coisas mudam, existem papéis forjados pela sociedade que são feitos simplesmente para incutir ideias ilusórias de felicidade que não se enquadram mais na realidade.

Recordo a homenagem incrível de uma das minhas professoras da ESTA em Abrantes sobre as “Mães” presentes na vida dela desde tenra infância. Foi libertador e incrível aquele momento em que escreveu na sua página do facebook a história de como tinha crescido, explicou que a mãe biológica tinha morrido quando era muito pequena e que foi com a Tia, as amigas da mãe, as primas e outras mulheres fortes que aprendeu a ser uma mulher, um ser humano. Foi das melhores homenagens que li à figura da Mãe, da mulher.

Existem também aqueles que são filhos de abusadores. Como podem representar na nossa sociedade, que exige esse ideal de felicidade, o dia dos pais os meninos e meninas que durante o período de confinamento telefonavam para a linha de apoio às vitimas por abuso sexual? Durante o período de confinamento as chamadas eram tantas que aqui na Bélgica tiveram de criar outra linha. Custava muito ouvir na rádio todos os dias “Não consegues mais ficar em casa? Precisas de ajuda? O teu pai bate-te ou abusa de ti? Liga para nós que vamos encontrar um “espaço” de Liberdade para que possas viver melhor”.

Depois existem também os filhos das mães que fazem o papel de mãe e de pai. Como devem exprimir esse vazio ou não vazio (depende da situação) esses seres humanos que foram criados por uma mãe ou pelos avós? Precisam de dizer: “Eu nunca vi o meu pai, tenho curiosidade de saber como é, nunca me suprou uma vela de aniversário, o meu pai é um mistério.” Este é o discurso de um miúdo da minha aldeia natal que nunca viu e não sabe sequer quem é o pai. Como vivem, como se representam na vida e na nossa sociedade os filhos de pai icógnito?

Por que motivo no dia do pai é tão vergonhoso falar-se do “filho ou da filha bastarda”? As pessoas podem nem sequer usar mais o termo, não deixa de ser incrível e curioso que uma filha bastarda do rei da Bélgica levou o pai a tribunal para provar a fiabilidade do seu ADN. A princesa Delphine Boel e artista plástica quis com isso provar que o ser “bastarda” não era sua condição ou culpa, mas antes que era antes do seu progenitor que era incapaz de assumir a própria filha. A princesa quis também com isso “limpar”simbólicamente o nome das crianças não reconhecidas, submetidas a uma vergonha permanente durante toda a vida, por serem filhas do homem que não tinha a condição social bem defenida.

Estas e outras situações devem fazer o leitor reflectir. Eu agradeço. Em nome do meu pai que sempre me ensinou a entender que cada pessoa e situação é diferente, eu agradeço que também o leitor pense sobre quem é de facto o vosso Pai ou que figura as pessoas transparecem.

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