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16 MAI 2021
OPINIÃO | "Ó Isabel! Anda ver o mu(ro)ndo...", por Estêvão de Moura
Por Jornal Abarca

Esta crónica já não é sobre o Muro da Vergonha mas sobre as rapargias da minha geração que tiveram um papel marcante na evolução da cidade quando o muro se tornava o centro da vida social abrantina.

As raparigas ao tempo em que crescia a importância do muro eram, de um modo geral, pessoas maravilhosas,mas recatadas e controladas social e familiarmente.

No entanto, apartir de um dado momento, mais do que os rapazes, são elas quem vai conduzir de forma determinada o processo de mudança social e o arrasta para patamares nunca antes vistos.

Antes do muro da vergonha se ter tornado o “passeio público” de Abrantes (o que, como vimos, só foi possível com a mudança dos costumes e hábitos sociais) não havia em Abrantes um sítio onde expor as “vaidades” pessoais ou como se costuma dizer, onde se fosse visto. O muro, veio mudar tudo isso. E aí as raparigas da minha geração tiveram um papel único.

Uma história, ao mesmo tempo decliciosa e simbólica, com mais de cinquenta anos, ajudará a entender este contexto.

Uma das particularidades de meados dos anos sessenta, foi o facto de as saias das raparigas, seguindo a moda internacional, com o surgimento da mini-saia no Reino Unido, terem começado a encurtar. Havia, no entanto, para as raparigas da EICA, que queriam andar na moda, um problema: a bata do uniforme escolar, por tradição, algo comprida.

Com o tempo e de modo a acompanhar o encurtar das saias, também as batas passaram a ser mais curtas e começaram a ver-se os joelhos.

Até que um dia o Director da EICA decidiu colocar a chefe das senhoras contínuas a impedir o acesso ao interior da Escola a alunas que tivessem as batas uns tantos centímetros (medidos com uma régua) acima dos joelhos. A resposta imediata em resposta à exigência: desfazer as bainhas. E assim lá foram entrando.

A situação manteve-se durante vários dias. O que veio a seguir é que verdadeiramente notável. Além de desembainharem as batas algumas das raparigas colaram folhas de papel às batas para aumentar o seu tamanho e assim se passeavam pela cidade. Principalmente na zona do muro da vergonha. A coisa tornou-se conversa obrigatória e a decisão do Professor Américo Santo alvo de críticas generalizadas e comentários jocosos.

Alguns dias depois o ilustre director da escola revogou a sua decisão. A senhora contínua deixou de estar na entrada da Escola a controlar a distância entre o joelho e a bainha da bata. A Escola e a cidade, nunca mais foram as mesmas. As raparigas deixaram de ser quem eram e perceberam que tinham um poder de mudar que até aí desconheciam. 

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