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16 MAI 2021
OPINIÃO | "Xexão", por Gabriel de Oliveira Feitor
Por Jornal Abarca

Maria da Conceição Moita nasceu em 5 de Abril de 1937 em Alcanena. Filha de Manuel Victor dos Santos Moita e Ernestina Moita, a sua educação, tal como a dos irmãos, fora cristã. A isso se deve à sua mãe, crente, ao contrário do pai, que, apesar de ter sido um convicto salazarista e o principal responsável pela consolidação das estruturas do regime no concelho, havia embebido a matriz anticlerical do republicanismo histórico dos seus antepassados e do contexto local.

Nos Noelistas tomou contacto com as bolsas de pobreza existentes em Lisboa e começou a formar a sua consciência política, que a faz entrar na onda do catolicismo progressista despertada pelas encíclicas Pacem in Terris e Populorum Progressio. Luta pela liberdade, pela paz, pelo fim da guerra colonial.

Maria da Conceição Moita teve um papel crucial nesse conjunto de lutas. Participou em 1972 na vigília da Capela do Rato, cujo comunicado fora lido por si. Também nela participou o seu irmão Luís. Nos últimos dias de 1973, a PIDE prendera-a, acusada de colaboração com as Brigadas Revolucionárias. Foi vítima da habitual repressão, conforme contou: "Mobilizaram um contingente inacreditável de polícias e PIDES armados para me prender. Levaram-me para a António Maria Cardoso e depois fomos, vertiginosamente, para Caxias. Fui logo para o Reduto Sul e submetida a tortura. Despiram-me toda, viram se não tinha objetos escondidos. Era de noite, hora de jantar. Fiquei logo na sala onde fui amplamente torturada durante muito tempo. Tive treze dias sem dormir. Obrigaram-me a ficar em pé nos últimos tempos. Foi muito violenta a tortura, sobretudo a do sono. Um dia deram-me uma grande bofetada, caí no chão e tive uma reação esquisitíssima, tremores dos pés à cabeça, como se estivesse a ter uma convulsão. Devem ter tido medo que fosse epilética e mandaram vir o médico. Noutra ocasião tive vómitos incontroláveis e alucinações. Era espantoso: chamavam os médicos e as enfermeiras para nos tratarem para poderem continuar a torturar-nos! As mulheres da PIDE que estavam comigo revezavam-se de 3 em 3 ou de 4 em 4 horas, sendo que os PIDES/ homens apareciam só para a tortura física e psicológica. Faziam ameaças terríveis, diziam-me que tinha acontecido 'isto e aquilo' aos meus irmãos que estavam a ser torturados ao mesmo tempo, assim como outros amigos. Jogaram com isso. Era uma pressão imensa. Houve um dia em que comecei a ver tudo azul. Nesse dia, acabaram com a tortura e mandaram-me para a cadeia. Fui ao médico. Estava extremamente magra e com uma sensação na cabeça de vazio, de incapacidade de dizer “eu”. Receitou-me umas vitaminas e qualquer coisa para dormir. Depois, na cadeia, estive sempre convicta politicamente e muito segura. Simplesmente, de facto, falei durante a tortura. Como é que encaro isso? Houve muitas pessoas que se culpabilizaram toda a vida. Comigo isso não se passou. Devo dizer que considerei que todas as pessoas têm limites, e eu atingi o meu. Senti que não traí nada nem ninguém, não foi por traição que falei. Aceitei os meus limites. Mas foi muito doloroso. Mantenho um respeito imenso pelos que não falaram."

Saiu de Caxias apenas no dia 26 de Abril de 1974, já de noite, de punho em riste e em extrema alegria.

Faleceu no dia 30 de Março, de madrugada, com a serenidade que a caracterizava.

A última vez que estivemos juntos foi em Alcanena, no lançamento de um dos meus livros. Estava feliz porque eu havia restabelecido uma linha de contacto entre si e a sua terra natal, uma espécie de regresso, há muito ansiado. Falamos diversas vezes, sobre muitas coisas, mas, principalmente, sobre Alcanena.

Obrigado, “Xexão”!

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