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19 JUL 2021
OPINIÃO | "Uma cratera ao lado do glorioso, mais Ponte de Lima, slot machines e 3 irmãos", por José Alexandre
Por Jornal Abarca

1CRATERA DO METEORO,Flagstaff, Arizona, 2001.Crateras de vulcões já vi algumas. Umas, extintas há séculos; outras, tipo panelas de pressão, cheias de fumarolas de enxofre; as que bolham e rebolham em sopa infernal; as imperiais, com a lava a deslizar solene e vagarosa, a provar que as siderurgias são todas umas amadoras. Ou parecem quietas, mas sempre a resmungar; fazem estremecer, em mais do que simples ameaça. Mas uma cratera de meteorito com 1 km e meio de largura; 170 metros de fundo; bordas inchadas de 45 a 60 metros, tudo pelo brutal impacto de há 50 mil anos, é obra. Mais a mais, quando a imagino ao avesso, feita uma gigantesca cúpula natural, levantada ao céu sobre este marasmo árido, respingado de cactos de braços em candelabro, espinhaços, cardos, escorpiões negros, tarântulas, cobras cascavel, tudo num virote, de pouco me serve ter cuidado, se continuo a pastorear os pés por ali. E no meio desse “paraíso”, isto - na planície em curva seca e seca modorra, o semi-vácuo. Enorme, quase abissal. Ainda que muito esférica, muito diferente das bocarras do Vesúvioou do Etna, confirma de sobejo porque nunca vou saber em que categoria de formiga, me insiro afinal. Por mim, arrasa e sou arrasado.

Mas não sou único - Portugal aparece sempre, já o disse. Enquanto tiro umas fotografias àquela meia-lua virada para baixo, ouço falar português. Um casal dos seus 50 e tal. Ele, para o entroncado e baixote, rosadinho, minhoto dos 40 costados (Ponte de Lima), Manuel José; ela, mais para o magro, mais para o duriense e desconfiada, Maria da Conceição. Meto conversa (quem resiste? Ainda por cima no meio do Arizona?). Estão há 25 anos pelos States, Rhode Island, ela trabalha numa fábrica de bolachas, ele, conserta goteiras e telhados. E decidiram vir até à Califórnia, ver como param as modas, o mercado de trabalho por lá, não está essas coisas. Vieram de carro, uma peregrinação e peras, cidade atrás de cidade, cruza, descruza de fronteiras de Estados, dormem no carro para poupar, McDonalds e Kentucky Fried Chicken para as comidas. Vai quase para uma semana, no devagar é que pode haver o ganho do que se encontrar. Não sabiam da cratera. E muito menos que pudesse cair assim “uma matraca de porrada numa bola tão gigante, poça!”Ele não se cansa de olhar da esquerda para a direita e vice-versa, para baixo, para as bordas. E repete, - Poça, que coisa! Que diacho de coisa!Vira-se para mim, coça a cabeça, percebo que precisa de mais alguém que galfarre a mesma língua. E dispara a pergunta que lhe anseia a alma: – Acha que o tamanho desta cratera é maior que o Estádio do nosso Glorioso?Estou frito. Aquele “nosso”, podia criar incidente diplomático, se lhe revelo que nunca entrei no Estádio do Benfica, não tenciono fazê-lo e que sou do Sporting. Mas, que diabo, eramos do mesmo país de anões, pequeno, lá longe, cheio da baba, ranho, língua afiada e complexos de importância, penso eu de que. Uma mentirazita de caridade não custava nada. E assegurei-lhe que o estádio do Benfica devia ser bem maior. No mínimo, o dobro. Sorriu satisfeito, olha para a mulher com ar vitorioso, mas ela nicles, nem palavra, abana a cabeça, desconvencida. Se calhar era do Porto ou do Braga… Saímos da cerca da cratera. E é também como formigas que nos perdemos na impiedosa máquina do “Compra-me! Compra-me!”. O pavilhão de vendas, encostado à borda sul da cratera, é um universo. Pilhas de gravuras, desenhos, quadros da cratera como está e imaginada como teria sido com o meteoro, flamejante, explosivo, a esborrachar-se lá do alto. E tudo repetido em bonés, T-shirts, calções, cuecas, biquínis, aventais; porta-chaves, postais, relógios de pulso e de parede; pulseiras, anéis, brincos, colares; caixinhas com fragmentos do meteorito; canecas, travessas, pratos, copos, bandeirinhas; música new age; vídeos vagamente pornográficos na própria cratera; gravatas, lenços, magnetos; estojos de unhas; garrafas de conhaque (com título apropriado, Meteor Crater Big Splash, Grande Explosão do Meteoro); aspirinas, viagras, espermicidas, sprays anti aranhas e escorpiões, rolos de papel higiénico da cor do chão da cratera (juro!), e ficava o repetido eco, “Compra-me!”.

O nosso minhoto perde a cabeça, perante a reprovação óbvia da mulher, ouço-lhe o resmungar, claramente a dividir o desengano: - Tanta poupança de um lado, tanto espatifar de outro…!Realmente tinha razão. Mas entre marido e mulher, se nunca metas a colher, muito menos um carrinho de compras. Perdi a conta, mas pelo menos, aviou 2 garrafas de conhaque, meia dúzia de T-shirts, 4 canecas, 3 gravatas, um grande quadro esborratado de vermelho, amarelo e laranja, enfim, um festival. Ficou admirado porque não comprei nada. Desculpei-me, tinha que ir a Phoenix. Perguntei para onde iam a seguir: - Vamos a Las Vegas,disse ela com ar resignado. Las Vegas?!?,pensei, com sincero sentido apiedado. Coitadinhos, nem sabiam onde se vão meter, chegava o que vi o ano passado, quando lá fui tratar de um hotel a abrir nas Caraíbas. Vegas? - 60 casinos, 300 hotéis, 200 capelas de casamentos e mini tribunais para divórcios em 24 sobre 24 horas; 1.200 casas de penhores, 5 crematórios para os suicídios pelas perdas no jogo e o mais que se sabe. Mas há coisas únicas. Ter nas casas de banho dos casinos, ao lado de cada sanita e urinol, uma mini slot machine pregada na parede, pronta a ser usada, para que nem a bexiga e as vascas intestinais retirem as hipóteses da Dona Sorte (Lady Luck), não acreditaria. Mas vi. Simples: quando alguém se senta na sanita ou abre a breguilha, basta meter o cartão de multibanco mesmo ao lado. E com uma mão (esquerda, na sanita; direita no urinol), vai apertando o botão Play, e clique-clique, zás! mais uma jogada a alinhar laranjinhas, limões, estrelas, melancias. É génio. Sem dúvida, puro génio. Mas resumo da zarzuela, a cratera vende mais. Proporcionalmente bastante mais, para o momento a que ninguém assistiu, 50 mil anos atrás e não agora ou apenas a uns séculos de data. Nem as Pirâmides de Gizé, Troia, Pártenon ou Coliseu de Roma, conseguem tanto. Sugestão - se a ideia é recuperar o turismo no Algarve, aproveitem.

 

2. TRÊS MANOS. Lisboa, 2002.Por falar em casinos e jogatana, um senhor Trio. Sempre amigos, sempre unidos. O António Manuel, o João Francisco e a Maria do Carmo. O António Manuel, advogado, muito boa pessoa, até gostava, mas daria um mau político. O João Francisco, economista, daria até um bom político, mas as crises cíclicas de jogador, viciam quaisquer projetos a longo prazo (e sofre com isso – incluindo um divórcio e quase perda da custódia da filha). A Maria do Carmo, médica pediatra por devoção, nunca se interessou por política, pode namorar nas horas vagas de um fim de semana chuvoso, mas continua solteira, nunca lhe sobrou tempo para a fila de termómetros de bondade. Uma coisa lhes dou de bandeja aos três - foram o que foram, são o que são. Autênticos. Mas a Maria do Carmo ganha o pódio. De longe. O que é, é mais pelos irmãos do que si. Desdobra-se, multiplica-se, como que segue a sombra de Florence Nightingale. Compensa um, recauchuta o outro, volta a abraçá-los, como se fosse a primeira vez. E ambos lhe batem à porta com frequência, sem dúvida. Nunca falta mercurocromo e himalaias de paciência de ouvido. Um caso muito especial. Perguntei-lhe como conseguia tal prodígio. Sorriu, percebi que se armava em Miss Marple, a apanhar o criminoso na ratoeira. E perguntou: - Ora em essa! Faço como tu. Também não és amigo de todos? E há muitos anos?

Aha, tempo de afiar um cheque mate: - Sim sou. Mas sempre amador. A profissional, a pediatra de “crianças” de qualquer idade, com mais ou menos cabelos brancos, plantão permanente, 24 sobre 24, és tu ó carmelita, vulgo Maria do Carmo…

Devia ter previsto. Não se ficou,sorriu de novo e devolveu, muda e serena: - Sim, sou. Por isso é que coitado, mais cedo ou mais tarde, estás também na minha lista de pacientes!

Nem pensar, isso é que era bom… Mas, sei que a ameaça podia sempre existir, ninguém é de ferro. Mas, detesto perder, efeito boomerang, desta vez tenho que meter o dito cujo entre as pernas. E, quando muito, tentar o resgate, curar a arranhadela. Peço-lhe um café. Sem açúcar.

     

PS1 – Leitor(a), só envio a 2ª parte do “19DIVOC”, em Agosto. Desculpem. E, em mais um aniversário de abarca, que continuem as brisas felizes, sob um luar mais seguro e feliz

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