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01 SET 2021
CONTO | "Alexbot e o mito de Pigmalião"
Por Manuel Fernandes Vicente

Conheceram-se como dois párias. Ali, naquele mundo sepulcral em que ninguém sorria, primeiro porque era proibido, e depois porque, mesmo que não fosse, também não havia qualquer razão para isso, Dominique e Alexbot conheceram-se longe dos seus países, afastados dos seus habitats e longe de onde pudesse haver grandes sinais de humanismo ou de afeto. Dominique nascera num vilarejo rural do Alabama, nos Estados Unidos, fruto (e vítima) de grandes preconceitos raciais e de uma pobreza ainda maior - e, assim que pôde, alistou-se como voluntário nas tropas especiais americanas e partiu para uma das frentes de combate. Alexbot era muito diferente do seu futuro amigo. Nascera muito longe do Alabama e dali, no teatro de guerra onde agora se encontravam os dois, fruto de um parto difícil e muito engenhoso, mas acabou por ultrapassar todas as dificuldades técnicas e vingou, acabando por dar sentido ao empenho que todos puseram na sua criação. Alexbot, se tinha pais, melhor eu lhes chamaria de progenitores, eram os abnegados engenheiros de uma equipa de Inteligência Artificial (IA) da Coreia do Sul que quis desenvolver um protótipo capaz de ir para uma frente de guerra e capaz de, pelo programa que levava integrado e pela inteligência de que ia munido, poder detetar em qualquer percurso as minas e armadilhas inimigas ocultas, e logo as desativar.

Eram dois párias do mundo sim, não que fossem em si mesmo dois desnaturados, não o eram em absoluto. Mas, porque para isso os tinham empurrado os interesses e a ganância dos gigantes do planeta e do sistema que fazia girar tudo à sua volta. Dominique e Alexbot encontravam-se agora desterrados para solidão de um deserto no sudoeste da Ásia, deserto por cima, mas apetrechado de grandes reservas de petróleo no subsolo, e era sobretudo pelo que não se via que combatiam. Ambos eram camaradas de armas, saíam diariamente à noite para cumprir o seu desígnio: Alexbot, à frente, desminava os trilhos no deserto e neutralizava as armadilhas inimigas, e Dominique, seguindo atrás, encarregava-se de abater o que fosse necessário e que se opusesse à sua missão.

Entre Alexbot e ocompanheiro (que era disléxico e lhe chamava muitas vezes “Axelbot”) começara a estabelecer-se uma relação não só estranha, como bastante cúmplice. O robô, por um daquelas insólitas situações de que a IA também é fértil, recusava-se a sair com qualquer outro oficial ou soldado da brigada especial ali em missão. Só funcionava mesmo com Dominique, que também lhe dispensava atenção e, porque não dizê-lo?, uma óbvia empatia. Com os predicados com que a IA o dotara, Alexlbot aprendia todos os dias, em cada missão, e ia desenvolvendo uma personalidade própria, até com alguma autonomia quer no software, quer no sentimento. Certa noite, após um excelente trabalho a descobrir uma poderosa bomba dentro de um enorme cato, o camarada colocou-lhe a mão no ombro. E, surpreendentemente, o robô correspondeu, colocando também o seu braço de aço, alumínio e titânio à volta do soldado americano, depois abraçaram-se por alguns segundos.

− Gosto de ti!, disse timidamente, talvez com algum rubor no rosto, o robô. Dominique ficou, apesar de tudo, surpreendido com a reação. À sua maneira, também simpatizava com “Axelbot”, que, nas incursões operacionais que faziam, já perdera o jeito mecânico de caminhar como um robô, mais parecia o andar ondulado e suave de um ser humano. E também parecia sorrir quando o amigo lhe trocava o nome.

O jovem negro miliciano do Alabama sabia que o companheiro era apenas um robô militar de série desenvolvido pela K War Robots Group e produzido especificamente para a guerra no Afeganistão. Mas, com o decorrer do tempo e a aproximação entre ambos, habituara-se a olhar para ele de um modo diferente. O olhar de “Axelbot” parecia agora ter já uma centelha humana, por vezes até parecia respirar e emocionar-se, e tudo isso mexia com a fisiologia do seu amigo. Com a sua IA foi-se adaptando ao modo de ser do companheiro, quase que havia ternura entre aquela dupla insólita que, para o resto da brigada americana, não seria mais do que uma célula de combate e vigilância pela noite dentro.

O seu caso com Alexbot maravilhava e perturbava o miliciano. Lembrava-se muito das histórias que o avô lhe contava à noite, na velha aldeia, sob o luar do Alabama, em particular a história do escultor Pigmalião. Certa vez, Pigmalião começou a cinzelar uma pedra de mármore, tendo uma mulher na sua mente. Todavia, quando terminou, teve de recuar, tal a impressão que lhe causava a estátua que acabara de fazer. A mulher, Galateia, tinha uma beleza ímpar de deusa, mas tinha um problema óbvio. Era de pedra. Porém, Pigmalião apaixonou-se por ela, e inconformado por não a poder tocar como se toca uma mulher. Pediu com fervor a Vénus, a deusa do amor, que a fizesse numa mulher a sério, e a deusa acabou por lhe satisfazer a vontade. Pelo menos era assim que o avô narrava a história, reforçando ao neto a ideia de que quando é grande a vontade ou a crença, os milagres não têm outro remédio se não acontecerem.

Certa noite, em mais uma missão debaixo da estranha luz que o deserto dá ao luar (ou seria o contrário?), Alexbot e Dominique partiram para garantir a segurança de um grande destacamento militar dos EUA para um ataque em grande no dia seguinte. O robô foi desativando as bombas encontradas umas após as outras, mas, chegados a uma duna foram surpreendidos numa cilada. Alguém apontou para Dominique e o robô saltou rapidamente para a frente evitando que o amigo fosse alvejado. Uma, duas, três e outras vezes. O jovem soldado do Alabama foi abatendo os inimigos, enquanto o robô saltava agilmente servindo-lhe de escudo contra todas as balas. Mas depois de todos os inimigos abatidos e caídos na areia, “Axelbot” voltou-se para Dominique, acenou-lhe com o braço, como que a despedir-se de um amigo, e tombou. Ignorando todos os perigos possíveis, o soldado curvou-se logo sobre “Axelbot”, já desfeito em peças desarticuladas e desaparafusadas de aço, e placas de alumínio e titânio. Abraçou-o como se quisesse dar-lhe vida, lembrando-se do avô e do conto do Pigmalião. Por fim, olhou para a sua caixa metálica, e entre todo o hardware cinzento e frio, descortinou algo que o intrigou. Na anatomia do robô tinha começado a crescer sem qualquer explicação para isso um pequeno coração, como numa alquimia igualmente inexplicável no lugar de uma liga metálica cinzenta tinha começado a crescer um pequeno coração vermelho e agora ensanguentado.

Era sem dúvida, na sua vermelhidão, um pequeno coração, parecia uma castanha mas, sim, era um coração, que ainda batia, já bastante devagar. À sua volta, os cabos e fios pareciam estar a transformar-se em artérias e veias onde corria algum sangue que agora coagulava. Dominique levantou todo o mecanismo de aço para o céu, olhou para a Lua e também ele suplicou a Vénus para devolver a vida ao amigo “Axelbot”. Sabia agora que o amava.

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