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19 OCT 2021
CRÓNICA | "Melancolia Outonal", por Armando Fernandes
Por Jornal Abarca

Os frutos ganham doçura e rotundidade, as vinhas, refulgentes de coloração de rememoração da verdura dos tempos de vivacidade, as uvas prometem elixires destinados a esmorecerem saudades do que já vivi, o ortodoxo Pablo Neruda escreveuConfesso que vivi, as maçãs reinetasácidas, reinam na fruteira à espera de lembrarem o óbvio – o Mundo é ácido, escalavrado e volátil - avisando-me dos cuidados na consumição dos pêssegos sumarentos, reboludos, cujas fatias laminadas talvez tivessem consolado até aos profundos abismos da alma a Condessa italiana inspiradora do carpaccio hoje iguaria universal, também os referidos pêssegos capazes de causarem maleitas aos proprietários para todo o sempre da maleita denominada diabetes.

O distinto escritor galego Pablo Iglésias escreveu uma obra a glorificar o Outono comestível, vegetal, de carniça esdrúxula (peixe, mariscos e carne) na qual atribui virtudes de vários géneros incluindo de deleite sensual às filhas e filhos das árvores e arbustos da terceira temporada do ano, numa cornucópia de felicidade emanada do Húmus da terra quantas vezes não prometida, não bendita, por os Homens a sugarem para lá do seu potencial a conceder lucros ubérrimos a fundamentalistas estilo menina Greta granjeadora de milhões para seu sossego e conforto dos pais.

Os figos, lampos e sem o serem, atreitos a rebentarem os beiços de quem os não come, a Bíblia possibilita leituras díspares acerca dos frutos da figueira esgaçada dado o peso do nefando pecado de Judas Iscariotes, no Ribatejo figos a esmo até para toldarem o siso em noites de céu estrelado.

Também está na altura de falar nos frutos secos, dos cada vez mais raros pinhões tão gulosos a sós, tão saborosos no enriquecimento de confeitos, bolos, tartes e torrões e, das pinhoadas seivosas. Pois as nozes de carapaças vêm desde a época da trilogia alimentar de antes da dominação do fogo – cru, podre e fermentado –, estou em crer no engenho dos meninos envoltos em peles a brincarem aos castelos sem o saberem levando-os a desenharem gravuras rupestres a fim de azucrinarem a cabeça e a darem emprego aos arqueólogos dos dias de hoje. Também joguei essa modalidade, os ganhos obrigavam a alegremente partir as nozes, os grãos ou miolo acompanhavam pão pesado de centeio e/ou pão de trigo cozido no forno aldeão na véspera dos dias nomeados e festivos. Tudo isto sucedeu há um cesto de anos, no entanto, muito depois dos meninos das cavernas. Convenhamos!

O escritor Aquilino Ribeiro escreveu Andam faunos pelos bosques, andei e percorri bosques, mesmo na Floresta Negra não vislumbrei uma única fêmea desse género, bagas, rebentos de bétulas e cogumelos. Nunca saboreei bagas, rebentos e cogumelos sim.

O meu primeiro filho ainda respirava saúde, um cancro arrebatou-mo. Adeus bagas e bétulas, sobram os cogumelos a recordá-lo. É, o Outono celebra-se a data dos entes queridos ora no Oriente, passados 10 dias ocorrem as libações jubilosas dedicadas ao vinho novo, mais uma vez o Homem procura esconder a melancolia do tempo que Proust andou à procura. Debalde!

Não imito o famoso escritor, assisto ao desfolhar do calendário tal como contemplo o cair cadenciado das folhas no jardim e pátio da casa onde, maioritariamente, rememoro melancolicamente os «faustos fortes, fracos e fastidiosos» do passado sem perder a alegria de viver. Entre os calores estivais e os frios invernais a virtude do melancólico Outono!

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