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19 OCT 2021
CRÓNICA | "OSC e Abrantes", por Estêvão de Moura
Por Jornal Abarca

Há uma questão que pode colocar-se relacionando Otelo Saraiva de Carvalho (nesta crónica identificado como OSC) o estratega militar do 25 de Abril recentemente falecido e a cidade de Abrantes e que é a seguinte: tivesse OSC permanecido um militar, sem ambições de ascender a um papel político proeminente em Portugal, como fizeram muitos dos seus camaradas de armas envolvidos, como ele, no 25 de Abri, a Abrantes de hoje seria a mesma cidade?

A resposta é: não! E a razão é muito simples: é hoje impossível saber o que seria a cidade de Abrantes e a sua região, se o então proeminente abrantino Eurico Heitor Consciência (Dr.) (nesta crónica identificado como EHC) que, numa das etapas da sua vida e quando se encontrava no auge das suas capacidades intelectuais e vinha de uma dinâmica de sucessos locais como as Jornadas Culturais e a direcção do Sporting Clube de Abrantes, quando foi candidato à Câmara Municipal de Abrantes tivesse sido eleito Presidente da Câmara, o que não sucedeu.

A questão que se coloca atrás só é compreensível se levarmos em linha de conta que, ao tempo, a candidatura de EHC o colocava como uma espécie de independente, dada a sua expulsão dos quadros de militantes do Partido Socialista no Verão de 1976.

E porque foi expulso do Partido Socialista EHC? Por uma situação quase caricata.

Com o voluntarismo que o caracterizava e convencido que a democracia era o direito de cada um actuar de acordo com as suas convicções pessoais EHC escreveu, num dos jornais locais, no decurso das primeiras eleições em democracia, para a Presidência da República, um artigo com o título “Soares Vota Otelo!”.

Foi quanto bastou para que fosse instaurado a EHC um processo disciplinar, em pleno verão, quando este se encontrava de férias em Sines (a nota de culpa foi enviada para o escritório em Abrantes).

Curiosamente a expulsão de EHC dá-se por uma razão administrativa: como este não respondeu no prazo estabelecido à nota de culpa as acusações foram todas dadas como provadas nos termos em que eram formuladas.

Estas eleições para a Presidência da República decorreram em Junho de 1976. E logo em Dezembro realizaram-se as primeiras eleições autárquicas, a que EHC foi candidato, não pelo Partido Socialista, o que seria de presumir, face à sua proeminência e capacidade organizativa, mas como uma espécie de independente.

Há quem defenda, intramuros abrantinos que existiu, dentro do PS abrantino uma cabala para neutralizar EHC de modo a impedir a sua ascensão a líder incontestável do PS-Abrantes. Não sei se terá sido mesmo assim.

Pessoas ligadas ao PS-Abrantes, ao tempo muito influentes, lamentavam publicamente essa decisão, que era vista com algum desconforto, por dar mostras de que a liberdade de opinião dentro de um partido político é uma falácia. Conhecendo bem algumas das pessoas que exprimiram esse desconforto, creio que eram genuínas nas suas observações. Mas, nem todos pensavam assim e houve quem apoiasse fortemente a decisão do Partido Socialista de expulsar EHC.

Voltamos ao início da crónica: se OSC se tivesse mantido exclusivamente como militar EHC nunca teria escrito o artigo de jornal “Soares Vota Otelo” que levou à sua expulsão do Partido Socialista e provavelmente teria sido eleito Presidente da Câmara de Abrantes (cargo para o qual era, inequivocamente, a pessoa melhor qualificada).

Fizeram-lhe a cama, como se costuma dizer. Por isso, a resposta à questão: de como seria Abrantes e a sua região se OSC se tivesse mantido estritamente militar ficará para sempre sem resposta. Mas, é claro, face ao estado a que a cidade chegou, podemos sempre puxar pela imaginação.

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