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19 OCT 2021
CRÓNICA | "Um banho de realidade", por Ricardo Rodrigues
Por Jornal Abarca

O fenómeno CHEGA veio para ficar. Este é um ponto prévio que está à vista de todos e que não vale a pena tentar sacudir para debaixo do tapete. Por mais que custe a compreender, os actos eleitorais desde 2019 tem vindo a mostrar isso.

Contudo, o CHEGA não tem capacidade para governar – no máximo em coligação caso o PSD se venda à sede de ser governo. Essa minha convicção assenta numa desconfiança prolongada que se confirmou nas últimas autárquicas: o CHEGA não tem implementação local.

Poderá até um dia conquistar uma autarquia nalgum tipo de micro-fenómeno, como o Bloco de Esquerda teve Salvaterra de Magos durante 12 anos, mas nunca será um partido com expressão local.

Por isso, o CHEGA cresce e implode na figura de André Ventura. Mas os líderes do partido sabem isso, não é por acaso que o foi o único partido a colocar a imagem do seu líder nos cartazes de campanha para eleições autárquicas e sempre em plano principal com o candidato local a ser relegado para trás.

Mas os números não mentem. Mesmo espremendo a figura de Ventura, e mesmo considerando que o CHEGA vive um momento óptimo para crescer, a que não é alheia a pandemia, isso não foi suficiente para que o partido mostrasse a força que revelou nas Presidenciais de Janeiro.

Por exemplo, nessa eleição, e considerando os 15 concelhos de abrangência do abarca, André Ventura teve 12.215 votos, uma média de 814 votos por município. Contudo nas últimas Autárquicas, nos 14 concelhos em que concorreu na nossa região (não participaram no sufrágio em Vila de Rei), o resultado baixa para 5.640, uma média de 402 votos por concelho. Excluindo Vila de Rei, e fazendo uma comparação directa nos municípios em que o CHEGA se sujeitou a sufrágio nas Presidenciais e nas Autárquicas, chegamos à conclusão que o número de votantes baixou 53%, ou seja, passou para menos de metade.

Esta é a verdadeira dimensão do CHEGA no panorama nacional. Nem sequer creio que estão a crescer, como se insinua, apenas agora representam uma camada da população que sempre existiu.

Mesmo em Tomar e no Entroncamento, onde existe um problema com a comunidade cigana e o discurso xenófobo de Ventura rendeu um vereador nestes municípios, a votação passou de um global de 3.499 votos nas Presidenciais para 2.058 nas Autárquicas, uma redução de 42%.

O próprio André Ventura concorreu como cabeça de lista à Assembleia Municipal de Moura, onde obteve um bom resultado nas Presidenciais, e talvez estivesse convencido de que facilmente conseguiria a primeira liderança autárquica para o CHEGA. Não só perdeu como viu a votação reduzida em praticamente 5% dos votos.

O CHEGA acaba estas autárquicas alcançando cerca de 208 mil votos. Este resultado, numa conjuntura muito favorável para o partido, e após os bons resultados alcançados nas Presidenciais, há cerca de oito meses, representa praticamente metade dos votos da CDU no seu pior resultado autárquico de sempre. Esta comparação revela bem a irrelevância política do CHEGA a nível local.

Certamente elegerá um bom número de deputados nas próximas legislativas. Porque as pessoas votarão na figura de André Ventura. Mas também esse resultado permitirá ver a verdade essência e os representantes do CHEGA. E as pessoas perceberão que não há ali nada de sebastianismo.

André Ventura tinha-se preparado para cantar vitória nestas Autárquicas. Nas primeiras reacções após o fecho das urnas mostrou-se esperançado em que o CHEGA conseguisse ser a terceira força política mais votada. Foi a sexta. Ventura levou um banho de realidade.

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