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31 OCT 2021
CONTO | "O renascer mágico de Teresa Simpson"
Por Manuel Fernandes Vicente

Desde muito pequena que mostrava uma apetência inesgotável para ficar a escutar as histórias e historietas, lendas e fantasias imaginadas e a mangar que ao serão, junto à lareira e ao fumeiro, ou sentados os dois nos poiais e ao relento da rua, lhe contava o avô. George Simpson era um nobre cavalheiro britânico vindo há muitas décadas para a saga vinhateira do Douro, e costumava contar à neta histórias de vida irreais, a neta ficava quase em estado de letargia, e, por sua vontade, nunca deveriam terminar nem sair dali. Ainda muito antes de começar a sentar-se nos bancos da escola, e porque o avô George, lorde, vinicultor e com muitos homens nos socalcos pedregosos do Douro para orientar, nem sempre podia, Teresa Simpson manifestara já um invulgar interesse pelas letras, para aprender a ler e a escrever. Assim, repetia já narrativas de mulheres de queixos muito agudos e narizes aduncos e lengalengas de ódios cruéis e ciúmes cordiais. Mesmo quando o avô não estivesse presente, lendo, conhecia histórias, e talvez começasse a escrever outras para, à noitinha, ser ela a contá-las ao avô, ao irmão e a quem as quisesse escutar.

Pouco tempo depois da entrada na escola, e porque a professora, sensível ao seu talento, também a estimulasse nesse sentido, percebeu que a escrita, a Literatura, onde também já se aventurava, era aquilo de que realmente gostava. Teresa entendia que era nesse caminho que sentia crescer o seu talento, era a mina onde havia um fluxo que a levava a perder a noção do tempo e do local onde se encontrava, e onde, em suma, sentia um chamamento. Como se a mina fosse tudo, e fora dela nada. Durante a adolescência, no liceu da cidade, ainda com os aromas do Douro, ou já depois, na Faculdade de Letras, em Coimbra, tudo concorreu para que a sua vocação, tão precocemente anunciada como uma visão, se reforçasse. Para si, a vida, no essencial, era escrever. Tal como alguns amigos sentiam esse sentido de vida junto a um violino ou entre telas, pincéis e paletas cheias de cor, para Teresa, era neste ato simples de pensar, imaginar e escrever histórias que sentia a sua liberdade criativa, era nela que se sentia íntegra e como um balão colorido sobre nuvens e montanhas. Da escrita saíam os jorros do seu talento e de uma imaginação fértil, enigmática e quase sempre desconcertante. Era esse o seu ouro, a sua mina, e tudo o resto na vida, para ela, era a regurgitação das ideias dos outros, ruído ambiente e banalidades de base, que podiam ter o seu interesse para os outros, mas estavam longe de, para ela, terem eloquência de uma paixão.

Ainda antes de terminar a faculdade, Teresa Simpson começou a escrever o seu grande romance e a converter-se à sua condição monástica de autora. Ao certo, algumas ideias para garatujar já vinham de trás, eram ideias cruciais para desenhar o seu romance em torno da fé, dos cismas e das crenças do povo que conhecia das lides vinhateiras na quinta da famíla no Douro, das lides de Coimbra e do país do início do século XX, e os seus protagonistas, que cresceram durante anos na sua mente. Eram “pessoas” que viviam nela. Com os seus instintos, almas ímpias afeiçoadas a fantasias ou apegadas a corpos sofridos, ou vivendo ainda na confraria terrestre das misérias, dos heroísmos, do bom vinho e dos cismas, vícios e tertúlias de todos os dias.

Teresa Simpson andou anos a escrever a sua obra. Ao lastro das memórias de infância e da adolescência na terra dos avós, do observar a muita emigração para o Brasil, com o regresso dos que lá encontraram minas de ouro ou faliram, juntou a sua própria imaginação e reflexões filosóficas, integrando personagens vivos e intensos, e também do povo afadigado, teimoso e sempre pronto a persignar-se e a comungar no primeiro boato ouvido - tudo num romance invulgar, fogoso e mágico. Com o volumoso manuscrito debaixo do braço, Teresa percorreu todos os caminhos que, imaginou, a pudessem levar até ao editor do seu livro. Mas ninguém reconheceu os seus méritos, e, ainda menos, mostrou coragem para apostar na jovem autora. Teresa apostara com obsessão toda a sua vida na Literatura, e durante anos investira o seu talento e a sua perseverança quase conventual nesta obra, que considerava, sem falsas modéstias, digna e revolucinária, capaz mesmo de abrir novos horizontes à Literatura portuguesa. Estava desesperada e, em boa verdade, já não encontrava razões para continuar a ler e escrever - e, por isso, continuar a viver. Há quem considere que uma obra-prima vale por si, independentemente de haver ou não quem a saiba ler, escutar, olhar e deixar-se fascinar. Mas ela não. Como escritora, Teresa escrevia para que os seus livros fossem lidos, para poder comunicar e para estar ligada ao mundo com a interpretação que tinha dele. Era essa a sua missão, não escrevia para si, mas para que a sua obra pudesse ser desfrutada e apreciada por quem lhe pudesse reconhecer o seu valor. Sem o romance editado, era como se a sua existência fosse absurda. E, sem escrever, cada vez mais esta frustração penetrava no mais íntimo do seu ser.

Ceifada pela desilusão, a jovem escritora entrega-se ao alcoolismo solitário nos recantos da adega da quinta. O vinho que a família produzia era agora o seu refúgio, passou a beber sem medida, numa perdição de ficar afogada numa inconsciência ébria e permanente. Era este o consolo que lhe ocupava agora o lugar das palavras e dos sonhos que neles moravam. E acabou na letargia do absoluto isolamento do mundo. O grosso maço de folhas manuscritas com a imaculadaParker com a sua distinta tinta azul-mar sobre a mesa-de-cabeceira era, na realidade, o único elo que ainda a atava à vida, e nem a ternura do seu velho avô e dos pais, ou o alento dado pelo irmão a tiravam desse poço cada vez mais fundo. Cada ano que passava, mais irreversível era o seu caso, até que foi hospitalizada em estado de coma, e numa vida apenas possível por estar ligada às máquinas.

Um dia, o avô e o irmão, inconformados com o infortúnio de Teresa, decidiram pegar no manuscrito e levá-lo até um amigo da família, um editor inglês radicado recentemente no Porto, que se entusiasmou a lê-lo e decidiu que iniciaria de imediato o processo para a sua publicação. E, poucos meses depois, já traduzido também noutras línguas, seria reconhecido em Portugal e aclamado internacionalamente. Uma obra-prima da cultura portuguesa, segundo os críticos, e um “esmagador” Prémio de Literatura de ficção europeia para o júri que o elegeu, com centenas de milhares de exemplares já vendidos em todo o mundo. E Teresa emergiu magicamente do modo ébrio e da vida vegetativa e artificial em que mergulhara nos últimos anos.

̶  Eu sonhei este tempo todo com os meus personagens, com o médico Abel, soror Carlota, o Guilherme, o George, a tia Geninha, o Arnold-sem-escrúpulos, a criada Gabriela que se apaixonara pelo patrão, a entrevada Maria Luísinha, a costureira Diana e a Gertrudes, a bruxa boa… É inacreditável, foram eles que me sacudiram e disseram que o livro já existia e era um sucesso, foi com eles, com estas queridas figuras da minha imaginação que eu sobrevivi todo este tempo. Estou aturdida com tudo isto, as figuras a quem eu dei vida através da minha fantasia, foram elas que me mantiveram viva na minha existência sem consciência, e é a elas e à minha família que devo o sentir-me de novo a reviver.

Foi a força fabulosa das personagens ficcionadas, que ganharam um novo alento através da leitura dos muitos milhares de leitores assombrados com a energia instilada nas narrativas que Teresa tão harmoniosamente soubera desenhar no seu livro, que agora acordavam a autora do seu sono profundo e quase fatal. E Teresa Simpson estava-lhes eternamente grata pela reencarnação que ganhara através dos personagens da sua fantasia criadora, pela forma como lhe devolveram a vida que, também ela, como autora, deu por elas.

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