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15 NOV 2021
OPINIÃO | "Os óculos do Professor de Jornalismo do Liceu", por Ana Teixeira
Por Jornal Abarca

Vamos imaginar que este jornal é uma sala de aula, Margarida Trincão a Senhora Professora e eu a má aluna que entrega os trabalhos sempre fora do prazo. Obviamente que este comportamento não me pode orgulhar. Pelo contrário, envergonha-me e aqui me penitencio. Assim sendo, aqui estou, decorrido mais um mês, a rabiscar estas palavras com seis dias de atraso. Parece que só consigo cumprir os prazos no direito e porque são imperativos.

Esta introdução, como qualquer introdução, serve para dizer ao que venho este mês. Tendo na calha escrever sobre o mau “estado da nação - vejam só a originalidade - ontem, infelizmente, alterei o tema ao ser confrontada com a morte do Professor de Jornalismo do Liceu. O meu Professor de Jornalismo. Posso dizer o meu porque foi o único.

Por convicção e sem pestanejar escolhi no décimo ano a área de Jornalismo e Turismo. Por isso, tive o privilégio de durante dois anos ter o Senhor Professor Alcínio Serras como mestre a duas disciplinas: jornalismo e antropologia cultural.

Durante os 10.º e 11.º anos integrei a denominada “turma dos seminaristas”. Sim, ainda sou desse tempo no Liceu. Dois anos fantásticos. Os colegas e os professores. Nunca faltaram violas e cantorias. O Pe. Darcy Vilarinho (Francês e Técnicas de Tradução, mais uma dupla semanal) a mandar-me calar constantemente e a irritar-me quando no dia de entrega dos testes se dirigia a mim pronunciando “Faustina”.

O Professor Alcínio era um homem calmo e paciente com os alunos. Nunca gritou connosco. Nem no dia, numa das suas aulas de Jornalismo, após colocar os óculos na secretária e começar a dissertar e caminhar de um lado para o outro junto ao quadro, num daqueles pavilhões virados para a piscina, ao tentar recolocar os ditos na cara, estes tinham desaparecido. Eu, que desde a escola primária, através de um modelo “imperativo de alturas”, ordenado pela senhora Professora Madalena fiquei confinada à penúltima secretária, adoptei a imposição como escolha e foi para a vida. Até ao último dia na faculdade. Sempre na penúltima fila. Ainda hoje nas formações lá estou eu quase no fundo da sala.

Pois bem, numa aula de Jornalismo no Liceu e dando continuidade a esta prática, encontrava-me na penúltima carteira junto à janela, quando perante a exclamação do Professor Alcínio “Ah, os meus óculos? Eles estavam aqui!”, corro a sala com o olhar. Os óculos encontravam-se devidamente colocados na cara do rapazinho que estava na penúltima carteira da terceira fila e escutava atentamente o professor. Juro que não vi a manobra. Pensam que o Professor Alcínio gritou, esbracejou, ou algo semelhante? Desenganem-se. Começou a rir e disse “oh rapazes, essa foi muito boa, só não conto ao Darcy porque estavam lixados”. Mas não acredito porque o Pe. Darcy também era fixe.

Já manifestei neste espaço que ainda que namorasse com o direito desde os 13/14 anos, o jornalismo abanou esta relação quando tinha 16 anos. Quando terminei o 11.º ano falei sobre esta questão com várias pessoas, entre as quais, o Professor Alcínio e o meu Pai. Ambos me responderam: “Vai para jornalismo”. Entendo tal resposta na boca do professor, mas na do meu Pai ainda hoje penso “só um pai muito à frente dava aquele conselho”, sobretudo quando a minha mãe contrapunha “vai mas é para letras que tem mais futuro”. Atenção, estávamos nos anos 80.

Não sei precisar mas há cerca de 5/6 anos reencontrei o Professor Alcínio na “Sopadel”. Resolvi abordá-lo. Num regresso ao passado e porque nunca fui uma aluna brilhante só conseguiu recordar “Ah, eras daquela turma de seminaristas que me tiraram os óculos da secretária… eras de Tramagal nunca estavas calada, estavas sempre a protestar e fazes o quê? Sempre foste para jornalismo?

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