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15 NOV 2021
OPINIÃO | "A Pedofilia Como Arma", por Ricardo Rodrigues
Por Jornal Abarca

O último relatório sobre pedofilia no seio da Igreja Católica carimbou, novamente, uma realidade verdadeiramente assombrosa, mas que não espanta ninguém, sobretudo pela sucessão de casos do género.

A comissão nacional de investigação da criminalidade pedófila na Igreja em França assumiu a existência de cerca de três mil pedófilos na Igreja Católica desde 1950 e cerca de 300 mil casos. Este relatório diz-nos que, nas últimas sete décadas, apareceram 43 novos pedófilos e 4.300 mil novos abusos por ano na Igreja Católica em França. São 12 abusos todos os dias durante 70 anos.

O tema reveste-se de uma crueldade gritante devido a três circunstâncias: 1) a natureza do crime; 2) a utilização de uma instituição que deveria ser de protecção e moralmente infalível como a Igreja Católica; 3) a noção de que muitos dos abusados seriam crianças em situações desfavorecidas.

Houve reacções para todos os gostos. A Igreja Católica Francesa rapidamente se mostrou “envergonhada” com os números apresentados pedindo “perdão” a todas as vítimas, pela voz do bispo Eric de Moulins-Beaufort. Também “envergonhado” se revelou o Papa Francisco. Por seu turno, D. Américo Aguiar, do Patriarcado de Lisboa, chamou “a sociedade” à responsabilidade porque “este é um problema transversal”. Pagar impostos também é transversal, mas a Igreja tem um estatuto especial. Parece que, para D. Américo Aguiar, o domínio da pedofilia é menos importante que o da contribuição fiscal.

Mas, se as reacções da Igreja Católica pouco espantam, há um “silêncio ensurdecedor” no mundo da política, como referiu Ricardo Araújo Pereira.

Falamos, claro, de André Ventura. Alguém que usa a fé para se catapultar politicamente – quem se lembra da célebre frase “Deus confiou-me a difícil mas honrosa missão de transformar Portugal”? – ficou estranhamente em silêncio; alguém que fez campanha para as Presidenciais utilizando o Caso Casa Pia para associar os nomes de Paulo Pedroso, Ana Gomes e do PS ao escândalo de pedofilia, ficou estranhamente em silêncio perante a dimensão desta tragédia.

Este silêncio seria compreensível se falássemos de um caso isolado. Mas estamos a falar de um escândalo com números avassaladores que demonstram que a pedofilia é um problema instalado no seio da Igreja Católica. A mesma que Ventura evoca para justificar o seu malabarismo político.

José Pacheco Pereira, há cerca de um ano, no programa “Circulatura do Quadrado” da TVI/TSF, justificava antecipadamente o porquê de isto acontecer. Para o historiador, André Ventura não tem interesse em combater a pedofilia: tem interesse em associar a pedofilia à democracia, para assim justificar que “o sistema está podre”. De facto, em 2021, Ventura confirmou as palavras de Pacheco Pereira: em Janeiro fez campanha associando a política à pedofilia; em Outubro cala-se perante o escândalo de pedofilia na Igreja Católica.

Esta contradição é apenas (mais) uma prova de que o populismo de Ventura não busca justiça: procura apenas servir os seus próprios interesses.

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