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15 NOV 2021
OPINIÃO | "S. Jerónimo e a Trovoada", por Adelino Pires
Por Jornal Abarca

Em S. João de Gatão, para os lados de Amarante, recolhido no Solar entre Douro e Tâmega, como diria Saramago mais tarde sobre si próprio, Pascoaes atingira a idade em que as rugas deixavam de ser de expressão para serem a expressão de outra idade. O poeta, doutrinário para alguns, que viam em A Arte de Ser Português ou O Homem Universal a súmula do seu pensamento, e que antes de partir definitivamente nos deixou em A Minha Cartilha mais uma pérola, resolveu divagar. Pousou a lira e avançou como só um peso-pluma o poderia fazer. Que delícia. Peso-pluma. Assim o tratou carinhosamente António-Pedro Vasconcelos, num dos prefácios a uma das quatro biografias, logo quatro, por onde o poeta de Amarante, espraiou o seu espírito livre e inquieto. Em S. Paulo, Napoleão, S. Jerónimo e a Trovoada e O Penitente, Pascoaes deixou para a posteridade, na opinião de Vasconcelos, quatro fulgurantes e geniais biografias só ao alcance de um peso-pluma de génio. Leio o prefácio de O Penitente, sobre Camilo. Será talvez a que melhor nos poderá levar à iniciação da obra do poeta. Aqui divergem Jorge de Sena e o próprio António-Pedro. Para Sena, as biografias filosóficas de Pascoaes, dificilmente serão acessíveis sem que antes seja lida a “grande poesia” que as antecede. Para Vasconcelos, o escritor - esse “prodigioso efabulador”, espraia-se ao escrever sobre Camilo, porque é este precisamente o que nos está mais próximo, com a ironia do biógrafo e do biografado... “a noite portuense é uma rainha absoluta. Não permite que uma estrela brilhe no céu em nome de Deus, nem um candeeiro público em nome do Município...”.

Lembro-me disto hoje, quando escrevo, agora que ouço outro Jerónimo anunciar outro tipo de voto. Ao ouvi-lo, vem-me à memória Pascoaes e o seu S. Jerónimo e a Trovoada, algo de místico, que só um peso-pluma como Pascoaes poderia arrancar das trevas do Marão. Dizer que devemos a S. Jerónimo a primeira tradução da Bíblia para latim, a Vulgata, tornando a sua leitura mais acessível, será pouco e redutor para o papel do Doutor da Igreja. Como será pouco, minimizar o papel desse outro Jerónimo nestes anos de equilíbrio possível, acusando-o agora de não ter evitado o inevitável.

A geringonça há muito que havia acabado. E nessa solução maquilhada entre um PCP que sempre disse ao que vinha, um BE de tacticismo puro e um PS de conveniências, Jerónimo teve o mérito de a ter começado, não o demérito de a ter concluído. A geringonça implodiu por si própria. E chegados aqui, à trovoada perfeita, resta um PS, este PS arrogante, cego, surdo e mudo com o centro direita, porque sempre o foi e não o deveria ter sido, refém da sua esquerda, porque quando as nuvens se foram adensando, esta se furtou aos pingos da chuva.

Agora agitam-se as hostes daqui e dali. O PCP regressará às origens numa lavagem de alma e princípios. Faz bem. A coerência vale mais que um punhado de dólares. Na sua análise interna terão pesado as perdas autárquicas, parlamentares e sindicais, que assim poderão ser contidas e minimizadas. Retomará a luta, regressando à foice e martelo. Ao BE será difícil manter a encenação permanente de topo, apesar do activismo das bases. E a prazo, com Pedro Nuno Santos como putativo futuro líder do PS, terá com que se entreter para evitar a perda de palco e protagonismo. O BE, tem hoje, como alguém já disse, mais comentadores que vereadores. Tem-lhe valido o palco parlamentar e mediático e, aos poucos, será um case-study para os politólogos do futuro. No PS, mais cedo ou mais tarde acabará o estado de graça. As vozes de quem estará disponível para recentrar o debate começam a ouvir-se. Há dias falei-vos de Fausto. Hoje falo-vos de Sérgio. Não desse que estão a pensar. Mas de um outro que vale a pena escutar. Um tal Sérgio Sousa Pinto que sei que incomoda. Mas vai dizendo verdades que custam ouvir.

Retomo Pascoaes. “... O nosso monge vê ainda, no culto do deserto, a única defesa contra a mentira, a traição, a ingratidão, o ódio e outros bichos, que irrompem do coração humano, como alcateias dum bosque...” Dizia que S. Jerónimo não está morto, apenas esquecido. E o país não acaba se o governo acabar.

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