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20 DEZ 2021
OPINIÃO | "Os Riscos de uma Recuperação Desigual", por Nuno Alves
Por Jornal Abarca

Apesar dos claros indícios da chegada de uma nova vaga de infecções, muitos líderes governamentais continuam a falar orgulhosamente numa recuperação económica que continua em curso, mesmo depois de um quase congelamento da actividade económica durante os primeiros confinamentos. Contudo, este discurso de optimismo tem desvalorizado dois factos verificáveis. Em primeiro lugar, o severo abrandamento da actividade económica durante os primeiros tempos da pandemia agravou a precariedade económico-social daqueles que mais sofrem com a crescente desigualdade social. Neste vasto grupo social de pessoas mais desfavorecidas a tendência foi a perda de de emprego ou a sujeição a empregos precários e mal pagos onde viviam diariamente sob o risco de contrair a doença. Nos EUA, isso foi claramente visível entre a comunidade afro-americana. Mesmo apesar da intervenção estatal de grande parte dos governos para evitar a perda de rendimentos, a pandemia acentuou as dificuldades entre os mais desfavorecidos.

Em segundo lugar, temos de falar sobre a real recuperação económica que estamos a viver e que esconde realidades bem diferentes daquela retratada pelo optimismo político. A pandemia trouxe consigo mudanças abruptas, quer para a sociedade quer para o mundo do trabalho. Essa súbita alteração de contexto está longe de ter sido acompanhada por um processo de adaptação por parte da sociedade. Para agravar a situação, esses impactos provocados pela Covid 19 não se extinguem ou amenizam com o fim da pandemia. Os efeitos são duradouros e cada vez mais notórios: alterações nos rendimentos familiares, extinção de postos de trabalho, insegurança alimentar ou mesmo perda de qualidade na formação escolar das crianças.

A acrescentar a esse cenário mais estrutural, assistimos agora também à fragmentação das cadeias de abastecimento internacionais que suportam o funcionamento da economia internacional e também o regresso da inflação em alta, que ameaça estagnar ou mesmo diminuir os rendimentos das famílias.

No fim de contas, podemos estar perante um cenário de crescimento económico que, estatisticamente nos diz que estamos a recuperar a um bom ritmo. Mas, na prática, continuamos a verificar a existência de crescimento económico sem os devidos e adequados mecanismos de distribuição social. E no fim de contas, por mais paradoxal que seja, vivemos numa era onde o crescimento económico poderá agravar as desigualdades sociais.

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