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16 MAR 2022
OPINIÃO | "Primavera", por Armando Fernandes
Por Jornal Abarca

Sempre que se aproxima a chegada da Primavera exulto de alegria, logo assomam as imagens mesmo em épocas de seca de paisagens verdejantes coloridas com flores de múltiplas colorações, ouço sem ouvir sons da guitarra de Carlos Paredes (memorável o seu concerto e Abrantes, iniciativa da Fundação Gulbenkian) e imagens do filme Verdes Anos, a alacridade da obra-prima de Stravinsky, o livro «Todos os Anos Pela Primavera» a antecipar o 25 de Abril (para sempre), pois o sibarita Sttau Monteiro ousava desrespeitar o Manholas de Santa Comba do qual o seu pai foi Ministro e Embaixador em Londres.

O tropel de bicadas na memória relativamente ao correr dos dias na Primavera atropela via Internet as lembranças do passado mais profundo para meu pesar. Tento contrariar o lufa-lufa mediático, no entanto, a real/realidade atira-me à cara avalanches de acontecimentos desde os pueris até aos catastróficos a provocarem insónias tão pesadas como as de Camilo que o romancista registou no livro Noites de Insónia. Mas quem lê Camilo nos dias de hoje? Poucos, muito poucos. Se o fecundo autor fosse lido avidamente, a língua portuguesa não sofreria trato de polé, antes pelo contrário, tal como os cozidos com carnes bem fumadas descritas no Eusébio Macário e na Corja, seria suculenta iguaria para grande grosa de raparigas e rapazes que tropeçam ao torto e ao direito na arte de bem falar o português. Saberão o que é uma grosa? Uma grosa de violetas? Sim de flores primaveris, não de instrumentos musicais!

De Março a Junho é um formidável manancial de sabores, de mimosas carnes (quando os pastos abundam), de feéricas frutas, de suculentos legumes, podendo-se afirmar que no conjunto é a causa de os grandes pintores impressionistas poderem conceber pinturas para sempre, e demais criadores de arte.

Todos os sentidos rejuvenescem mal a Primavera surge, tudo ganha veios de vivacidade, Olhai os Lírios nos campos, rico Veríssimo autor desse romance convida o leitor a contemplá-los, os lírios brancos são o contraste do caleidoscópio florido onde os lírios estabelecem o contraste morte/vida no eterno retorno pensado e repensado por filósofos antigos, modernos e contemporâneos. Seria abusar da paciência do leitor continuar esta crónica destemperada de quem entrou no Inverno da vida, saudoso das esfusiantes Primaveras de outrora. O tempo tal como corre (quando corre?) a água no rio não permitindo banharmo-nos duas vezes na mesma água assim o tema veio à tona da água filosofal pelo cogitar de um filósofo grego.

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