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23 AGO 2022
OPINIÃO | "Cidadãos de Segunda", por Anabela Ferreira
Por Jornal Abarca

Quando se vive na aldeia, é da praxe falar dos aspetos positivos, dos encantos de morar no campo – a solidariedade, a familiaridade, as belas paisagens, a qualidade de vida, o silêncio, mas igualmente os sons, os paladares, a fauna que se observa, a flora…

Concordo totalmente com tal perspetiva apresentada e dela partilho. Contudo, a visão que hoje aqui abordo não é de todo essa. Mudei, então, de ideia? Obviamente que não. Não obstante, tenho presente que, na dicotomia litoral/interior este é o coitadinho, espécie de parente pobre, que é sempre relegado para segundo plano no tocante a investimento do erário público em infraestruturas e desenvolvimento geral. Ora, este conjunto de serviços básicos proporcionado pelo conjunto de recursos económicos e financeiros geridos por um governo, mas, não o esqueçamos nunca, dinheiro público, de todos nós contribuintes atuais, do passado ou do futuro, ou seja, de todos os cidadãos, deveria ser aplicado para todos, logo todos deveria significar a totalidade…

A verdade é que, numa geometria fractal, a dicotomia cidade/aldeia reproduz a primeira das dicotomias. A aldeia é sempre o parente pobre. E já nem falo no investimento geral que não ocorre por hábito. Refiro-me a algo muito simples que é apenas incúria e reflete o puro abandono – a reciclagem. Somos banhados, inundados, com sapientes lições institucionais, por publicidades regiamente pagas, emanadas de gabinetes quase inúteis e dispendiosos, resultantes num montante principesco que seria mais bem gerido e empregue se fosse utilizado em medidas práticas, concretas, de recolha dos lixos recicláveis. Concordo com a utilidade de algumas destas lições para sermos cidadãos cumpridores e ativos na preservação e proteção do planeta, pois, por um lado, reforça-se algo útil e, por outro, fico perplexa com algumas faltas de cidadania de quem ainda coloca no chão, por falta de espaço nos contentores, o lixo reciclável que deveria guardar em casa, aguardando que os ditos tivessem espaço. Tal atitude não é desculpável, mas até se compreende quando uma após outra tentativa se encontra os poucos contentores da reciclagem, ora sim, ora sim, lotados à exaustão.

Será assim tão difícil de perceber que, se tal acontece, é necessário e urgente investir algum do considerável dinheiro que o negócio da reciclagem produz em mais pontos de reciclagem e ou num maior número de contentores? Desaconselhável seria aumentar os dias de recolha, visto a poluição produzida nessa recolha ser considerável. Sabendo que é um negócio lucrativo e em expansão, que se passa então? Incúria é a palavra: negligência de quem recolhe e não reporta? Descuido de quem organiza? Desleixo de quem dirige? Incompetência de quem seleciona e contratualiza serviços para a câmara? Pode ser tudo isto… O resultado é evidente e não é bonito.

A minha aldeia (já chegou a ganhar a distinção de aldeia florida), tal como tantas outras, dizem muitos, lamentavelmente, votada à escassez de população, recordada apenas aquando de eleições e ainda assim lembrada de passagem, à pressa, num banco de supermercado, porque possui consideravelmente menos votantes que a cidade, além de maior número de valetas com ervas secas que a qualquer particular daria direito a autuação, podendo vir à conversa, é deixada ao abandono, ao esquecimento e a perigar em tempo de ondas de calor, ventos fortes e incêndios abundantes. O cocktail explosivo.

E alguém no seu gabinete citadino com ar condicionado se preocupa com tais factos? Não me parece. Obtém-se a maioria de X em X anos, vai-se vivendo. Quando se chegar ao final do mandato, e porque o povo tem memória curta, lá se faz a romagem pelas aldeias, angariando-se cruzes, nada católicas, nuns papelitos que de nada valerão a quem os introduzir na urna…visão negativista? Talvez, mas sobretudo, lamentavelmente, realista.

Percam a miopia ciclópica de olharem apenas para a avenida de entrada da cidade e para as festas desta e passem a olhar, mas vendo, para os problemas reais das aldeias e dos seus habitantes. Esta população envelhecida que ainda por cima não tem como se movimentar nas plataformas digitais dirigistas, porque nem internet tem, nem computador, nem conhecimentos para disso fazer uso. Nem tem de ter. E, como contribuintes que foram e cidadãos que são, têm direito a ter segurança, acessos e cuidados gerais públicos.

Há dois países neste país.

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